João Paulo II pede e Fidel estuda anistia
Autoridades do Vaticano que participaram do encontro de anteontem à noite entre João Paulo II e Fidel Castro em Havana afirmaram que o líder cubano vai atender a um pedido do papa e anistiar vários presos, podendo haver entre eles alguns dissidentes políticos. Uma alta fonte do Vaticano afirmou que a decisão do governo cubano deve ser vista como um gesto humanitário que beneficiará presos doentes, bem-comportados e que estão por terminar de cumprir pena. Segundo a delegação do papa, que encerra domingo sua histórica visita a Cuba, João Paulo II pediu a Fidel que libertasse cerca de 500 presos políticos.
Diplomatas europeus afirmam que o regime de Havana e o Vaticano vêm negociando nos bastidores essa libertação desde novembro de 1996, quando Fidel foi recebido pelo papa. Oficialmente, Cuba não admite a existência de prisioneiros políticos ou de consciência em suas penitenciárias, mas entidades de direitos humanos estimam que entre 500 e 700 pessoas cumprem pena por crimes políticos na ilha.
Depois do encontro de anteontem, no Palácio da Revolução, em Havana, o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, disse que o pedido do papa tinha sido recebido com muita cordialidade e atenção por Fidel.
Num inequívoco sintoma de mudança na relação dos cubanos com a Igreja, João Paulo II foi aclamado por milhares de fiéis ontem em Camaguey. São cubanos?, indagou o papa à multidão. Mais parecem mexicanos!, disse, bem-humorado, comparando a calorosa acolhida com a que recebeu durante sua visita ao México em 1979.
Na homilia, João Paulo II voltou a criticar o embargo comercial que os EUA mantêm contra Cuba há quase quatro décadas e pediu aos jovens do país aos quais a cerimônia era dedicada a construção de uma nova sociedade. Tal como ocorrera na véspera, quando o papa esteve em Santa Clara, a missa foi trasmitida ao vivo, para todo o país, pela TV cubana. O embargo econômico, sempre condenável, e a situação política não podem ser desculpas para os males que rondam a juventude. Não deixem para amanhã a tarefa de construir uma nova sociedade, na qual os sonhos mais nobres não se frustrem e vocês possam ser os protagonistas de sua história, pediu o papa. Desgraçadamente, é fácil para muitos cair no relativismo moral e na falta de identidade que fazem sofrer tantos jovens, vítimas de esquemas culturais vazios de sentido ou de algumas ideologias que não favorecem normas morais elevadas.
João Paulo II, que havia atacado na véspera a cultura abortista dos cubanos, atribuiu a esse relativismo moral o alcoolismo, a sexualidade mal vivida, o uso de drogas, a prostituição e a falta de um projeto sério de vida de que sofrem os jovens. Ele qualificou também de fuga para um mundo falso o deslumbramento dos jovens com o consumismo desenfreado, que fez milhares de pessoas emigrarem de Cuba para os EUA nas últimas décadas .
Com voz e mãos trêmulas, o papa teve o cuidado diplomático de tratar genericamente termos como ideologia e sistema político, sem referir-se diretamente ao regime cubano. Da mesma forma, não especificou os EUA em sua condenação ao embargo econômico.
Em Washington, o porta-voz da Casa Branca, Mike McCurry, reagiu às críticas do papa quanto às sanções econômicas dos EUA contra Cuba e à acusação de Fidel de que elas são a causa do genocídio do povo cubano. O líder cubano acusou os EUA no discurso de boas-vindas a João Paulo II. É o regime totalitário de Fidel Castro que causa o sofrimento do povo cubano; na política dos EUA para Cuba não há nada que se pareça, nem de longe, com um hipotético genocídio, disse McCurry. A economia de livre mercado, a democracia e o respeito aos direitos humanos trariam mais prosperidade e qualidade de vida para os cubanos; Fidel está, mais uma vez, no lado equivocado da história.





