João Paulo II eleva sua Igreja
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de março de 1998
Gilles Lapouge Agência Estado 
France PresseJoão Paulo II: coragemFinalmente João Paulo II fez, em nome da Igreja, um mea culpa, pedindo perdão aos judeus. Não se deve recriminá-lo por ter demorado tanto em publicar um documento que há dez anos vinha prometendo. A demora, pelo contrário, assegura uma seriedade suplementar aos sentimentos que ele exprime. Dessa forma, este papa, tão conservador, confirma que o seu pensamento é mais matizado do que se pensava. Não é curioso que o seu predecessor, João XXIII, o homem do Concílio Vaticano II, do aggiornamento da Igreja poeirenta, o queridinho dos cristãos de esquerda e de extrema-esquerda, nunca tenha dito uma só palavra sobre a Shoah e os judeus?
Observemos, também, que o documento de hoje toma lugar numa fileira de gestos fortes do papa polonês: visita à sinagoga de Roma, lembrança de que o povo judeu faz parte da identidade do Cristianismo, correção de todos os textos do Vaticano sobre os judeus. E ele renova o que já tinha dito, meses atrás, em 30 de setembro de 1997: fala do papel que dois mil anos de ensino católico hostil ao povo deicida desempenhou no extermínio do povo judeu na Shoah.
É claro que sempre haverá alguém para dizer que foram precisos 50 anos para que a Igreja se enchesse de coragem e admitisse o seu enorme erro. Mas a Igreja é um organismo de sangue frio e ignora o tempo. Ela precisou de 300 anos para admitir que Galileu não estava errado. Para a Shoah, só precisou de 50.
Permanece um ponto cego: no texto não se diz uma única palavra sobre o silêncio do papa Pio XII em relação ao extermínio. Estudos feitos por Friedlander ou por Rolf Hochhut, já demonstraram que Roma foi alertada, sim, por algumas chancelarias, desde o início de 1948, sobre o massacre de 6 milhões de judeus. E Pio XII não abriu o bico. Será que ele preferiu salvar os judeus do jeito que podia, na sombra? Dizem que a Igreja tirou meio milhão de judeus das garras dos nazistas. Ou será que ele temia as represálias contra os judeus? Ou então ele preferiu dar ênfase à luta contra os comunistas?
João Paulo II não diz uma só palavra sobre Pio XII. Por que? Meses atrás, os bispos franceses fizeram uma declaração de arrependimento a respeito da Shoah. Menos cautelosos do que João Paulo II, reconheceram os erros dos bispos e do papa. Esse gesto foi terrivelmente mal recebido em alguns meios católicos. Será que João Paulo II teme reações semelhantes?
Seja como for, ele não ousou dar esse passo. A política do Vaticano em relação a seus arquivos segue a mesma cautela. Na maioria dos países, o acesso aos arquivos é livre a partir de um certo prazo. O Vaticano, potência autocrática, não segue essas regras. Os arquivos só são abertos mediante uma decisão solitária e soberana do papa. Hoje, os historiadores só podem consultar esses arquivos até 22 de janeiro de 1922 - bem antes da ascensão de Hitler.
Seja como for, e ainda que alguns pontos permaneçam nas trevas, como não cumprimentar esse homem já idoso pela coragem que tem em querer erguer a Igreja, antes de ir embora, ao nível de seus próprios princípios?


