Jesuíta com coração franciscano
A periferia é uma constante na vida de Bergoglio. Ao se apresentar como o papa que veio "quase do fim do mundo", Francisco não fala somente daqueles que estão distantes geograficamente, mas sobretudo dos que estão na "periferia do nosso coração", na "periferia da existência". Como bispo de Roma, foi com os marginalizados que Francisco celebrou o ritual do lava-pés na Missa da Ceia do Senhor da Quinta-feira Santa, dando continuidade a uma tradição que assumiu quando ainda era sacerdote. Em Buenos Aires, costumava celebrar esta missa em prisões ou casas de acolhimento para pobres.
Para o arcebispo emérito de São Paulo, d. Claudio Hummes, esses gestos são sinais para o mundo e o mundo entende. "Esses atos mostram realmente que é um papa para os pobres, com os pobres e um papa que quer também que seja uma Igreja coerente com o Evangelho. Fico muito comovido e emocionado quando escuto e vejo este papa sendo tão coerente com seu nome", declarou, em entrevista recente à Rádio Vaticano.
Se o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Pedro Scherer, era o nome mais "badalado" antes do conclave, depois da eleição foi a vez de Hummes. O Papa já declarou publicamente que foi o cardeal brasileiro quem o inspirou a escolher o nome Francisco, e por isso o convidou a para ficar ao seu lado na primeira aparição pública.
Hummes e Bergoglio se conhecem muito bem. Estiveram juntos no conclave que elegeu Bento 16 e em outros eventos da Igreja, como os Sínodos, mas a convivência mais forte foi durante a Conferência de Aparecida, em 2007, que reuniu os bispos de toda a América Latina. Eles trabalharam juntos na elaboração do documento final do encontro.
Ao escolher o nome de Francisco, declarou Hummes, o papa adotou um programa de vida: "Um jesuíta com coração franciscano como ele é uma surpresa muito grande. Sempre digo: de onde nasceu este jesuíta franciscano? Nasceu de Buenos Aires, de sua experiência de vida lá, um arcebispo que foi para o meio do povo, na periferia, dos pobres, defendendo-os, estando de toda forma ao lado deles. Ali é que nasceu Francisco que temos hoje como papa. O próprio povo está mais entusiasmado, todos estão esperando coisas novas, gestos novos, formas novas e também as reformas, tão pedidas pelo colégio cardinalício e pelos bispos."
Os desafios de Francisco são muitos. É preciso colocar a Igreja em "movimento", como ele mesmo disse, caminhando com a humanidade. Nos trilhos da história. (B.F.)





