Renascida depois de 25 vezes destruída, Jerusalém é eterna. À flor da terra santa, suas pedras brilham douradas ao sol, e prateadas ao luar. Sedimentos de 50 séculos de fé e paixão testemunharam a criação do primeiro homem, a morte e a ressurreição de Jesus, a epopéia dos patriarcas Abraão, Isaac e David, e a cavalgada de Maomé aos céus.
Pedras de calcário dolomita consagradas por três civilizações. Os judeus as veneram no Muro das Lamentações. Os muçulmanos as cultuam no rochedo rachado pelo impulso da ascensão de Maomé no Domo da Rocha, a Mesquita de Omar. E os católicos as reverenciam pela Via Dolorosa até o Santo Sepulcro.
Na paisagem bíblica, surgem empilhadas, equilibradas, formando cercas. Os arqueólogos as reviram. Judeus ortodoxos e palestinos as atiram, como armas. E turistas as visitam. São muralhas, minaretes, sinagogas, igrejas e mesquitas. Dão cor e identidade a Jerusalém. Encarnam Jeová, Cristo e Maomé, petrificadas na Bíblia, no Talmude e no Alcorão, os guias oficiais da Terra Santa.
A alma de Jerusalém está cercada por 4,5 quilômetros de muralhas reerguidas em 1537 pelo sultão Suleiman, o Magnífico, no traçado original do século II, ao tempo dos romanos. Muros nunca a limitaram. Nem a protegeram. Ao sabor dos conquistadores foram expandidos ou contraídos. Dentro, apenas um quilômetro quadrado – o bastante para conter a história das grandes religiões monoteístas. O judaísmo imperou de 1003 a.C. até o ano 70 d.C., e depois se intercalaram o cristianismo (de 300 a 638, e de 1099 a 1187) e o islamismo (de 638 a 1099, e de 1187 a 1917). Hoje convivem Maomé, Jeová e Cristo, mas o ar ‘‘é saturado com orações e sonhos’’ como a fumaça nas cidades industriais. A poluição da fé: ‘‘Difícil respirar’’, diz o poeta israelense Yehuda Amichai.
A alma de Jerusalém tem oito portas. As quatro principais se abrem como a rosa dos ventos. A imponente Porta de Jafa era a saída para o porto, a Oeste. É a mais movimentada. Os árabes a chamam de Bab el-Khalil, a Porta do Amigo, em homenagem ao patriarca Abraão, ‘‘amigo de Deus’’. A Porta de Damasco se abre para a cidade de Nablus e para a Síria, ao Norte. Por ela se entra no bairro muçulmano. A Porta dos Leões aponta para o Leste, para Jericó, uma das mais antigas cidades do mundo. E a Porta de Sião está na direção de Hebron, ao Sul. Há uma porta destinada a se tornar a mais importante do mundo, se nela for realmente bater o Messias tão esperado pelos judeus ortodoxos – os haredim, ou ‘‘aqueles que tremem’’. É a Porta Dourada, ou ‘‘Porta da Compaixão’’. Os árabes a fecharam para impedir qualquer visita. Outra, a Porta Nova, furada em 1887, dá acesso direto ao bairro cristão. E por uma ‘‘porta de serviço’’, a Porta do Esterco, penetra-se no monte Moriah, considerado o local mais carregado de energia espiritual do planeta.
Monte Moriah: aqui, segundo o Gêneses, Deus criou o primeiro homem. E Abraão sacrificaria o filho Isaac, não fosse a intervenção de um anjo. Ainda aqui o rei Salomão construiu o Templo de um império que se estenderia do Eufrates ao Egito, em 1043 a.C., e do qual resta só a muralha ocidental, conhecida como Muro das Lamentações. As pedras do alto são bizantinas. As debaixo, herodianas, herança de uma obra mandada executar por Herodes, o Grande, em 20 a.C. As frestas entre as pedras adoradas estão hoje recheadas de papeizinhos com orações e pedidos de fiéis, já aceitos se enviados por fax.
Yerushala#m: soa como murmúrio de folhas. No primeiro registro conhecido, numa placa de argila datada de 25 séculos antes de Cristo, letras cuneiformes abreviam-na para Salem. A próxima menção, Urushalim, 600 anos depois, foi encontrada em estátuas usadas por escribas egípcios para amaldiçoar inimigos, provavelmente os hicsos, que invadiriam o vale do Nilo.
Urushalim, também Rushalimum, nasceu regada pela fonte Gichon, ou Jorro, no cume de Ophel, a leste do vale de Kidron, que ainda hoje separa a muralha de Jerusalém do monte das Oliveiras. A água jorrava por 30 minutos, secando por até 10 horas. Mas dava para saciar até 2,5 mil sedentos.
Mais 500 anos, e surge a terceira menção a Urushalim. Então, é um pedido de socorro do rei cananeu Abbi Hepa ao faraó Akhenaton: os jebuseus estavam chegando. E foram eles que Moisés e seu povo encontrariam dois séculos depois, quando fugiam da escravidão no Egito. Tão pequena, semidestruída, Jebus nem precisou ser conquistada. Foi, simplesmente, ocupada.
Especialista em religiões comparadas da Universidade Hebraica de Jerusalém, Josette Alia acredita que ‘‘o povo judeu, enquanto vagueava pelo deserto, ou mesmo durante a sangrenta conquista da Terra Prometida (entre os séculos 15 e 12 a.C.), não chegou a se fixar em Jerusalém antes de David, o rei pastor que tocava harpa e venceu o gigante Golias.
Rei David queria fundar uma capital para Israel fora dos domínios de clãs ou tribos. Por 600 shkalim da época (hoje um dólar são 2,5 shkalim), ele comprou uma área usada pelos jebuseus para debulhar grãos, no monte Moriah, e foi ali que depositou a Arca da Aliança, com as tábuas dos dez mandamentos de Deus a Moisés, tão poderosa que nivelava montanhas e acabava com os escorpiões e serpentes pelos caminhos do exílio. E assim Jeová incorporou-se a Jerusalém. E assim também na cidade santa se fixaram os judeus errantes. Salomão, filho de David, levantou o primeiro templo, em 963 a.C. A profunda identificação entre a cidade, o povo e Deus atravessou séculos.
Passam-se 300 anos, e 23 reis assírios ou egípcios, até que o imbatível rei da Babilônia, Nabucodonosor, entra em Jerusalém. ‘‘A formosa e delicada, a filha de Sião’’, como descrita em Jeremias, vira ruínas: o templo, arrasado; e o povo, exilado.
Rei dos reis, o persa Ciro conquista a Babilônia e dá autonomia aos judeus. Jerusalém volta a ser capital, 48 anos depois de arrasada. O Segundo Templo é construído onde existiu o primeiro. E também as muralhas. Mas duram pouco: as tropas de Alexandre, o Grande, trazem o paganismo e a helenização. De 332 a 200 a.C., com os ptolomeus do Egito e os selêucidas da Síria, a cidade ganha até um circo, além de estádios, ginásios e teatros. Mas, quando o rei Antíoco IV, em 168 a.C., resolve profanar o templo, acrescentando-lhe uma estátua de Zeus, provoca uma revolta, liderada por Judá, o Macabeu. Foi a primeira batalha dos judeus por Jerusalém. Durou 23 anos. E garantiu a paz por 80 anos.
Então, Roma se impôs a Jerusalém. Curioso, Pompeu foi ao templo para ver a quem se parecia Jeová. Não encontrando efígies, nada, autorizou o reinício dos cultos. Seu sucessor, rei Herodes, beduíno do Indumeu, dedicou-se a grandiosas obras. Bastou ele morrer, e os romanos tiraram dos judeus até mesmo a aparente independência. Esmagaram-lhes com impostos. E queimaram-lhes o templo, onde se refugiaram, outra vez rebelados. Mais de um milhão de mortos, contaria o cronista Flavius Joseph.
Jerusalém só recuperaria o status de capital dois mil anos depois, em 1948. Até o próprio nome tinha perdido, rebatizada de Aelia Capitolina.
Na Palestina, no fim do reinado de Herodes, desenrolava-se outra história: a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus da Galiléia, que se dizia filho de Deus. Ele já tinha previsto, olhando para o templo: ‘‘Não restará pedra sobre pedra.’’ Assim se fez. E nasceu a igreja cristã. Eleito passou a ser todo aquele que crê. Rompe-se o elo entre o povo eleito, Jeová e Jerusalém, agora com uma cidade celestial. ‘‘O templo está em qualquer um, e não mais nas pedras’’, como resume o professor Josette Alia.
Com a conversão do imperador bizantino Constantino, Jerusalém recuperou o nome. Tornou-se o maior centro de peregrinação do império romano. Em 335, com 300 bispos, a basílica do Santo Sepulcro foi inaugurada. Mas, em 514, os persas invadem a cidade, roubam a Cruz Santa e a levam para Ctésiphon, sua capital. Para tudo voltar ao que era, mais uma vez, com Heráclio, o Bizantino, em 630. Só por oito anos, quando surgem os cavaleiros de Maomé.
Yerushala#m, a ‘‘Cidade da Paz’’, agora é Al Khuds, ‘‘A Santa’’. Os islamitas já se voltavam para Jerusalém, depois de Meca e Medina, desde que Maomé a visitara com seu cavalo alado Burak, a cabeça de mulher e o rabo de pavão. E da mesma rocha em que Abraão estava por sacrificar o filho, alçou-se ao céu para receber a revelação. Mas o marco sagrado muçulmano tinha se tornado um depósito de lixo durante os tempos cristãos. Ao descobri-lo, o califa Omar apeou do camelo, rezou e prometeu que ali haveria uma mesquita. O califa Abdel Malek o atendeu, duplamente, em 685. Ergueu o Domo da Rocha, a mesquita de Omar sobre a rocha sagrada, e ainda ‘‘a remota’’, Al Aksa.
Por 400 anos, Al Khuds passou da dinastia omíada de Damasco para a dos abássidas, de Bagdá. Foi governada pelo ‘‘califa doido’’ al-Hakim. Os cruzados surgiram em 1099. Por dez dias, massacraram árabes e judeus. Lavavam-se do sangue nas fontes da esplanada do antigo templo e das mesquitas. Depois, iam rezar no Santo Sepulcro. O próximo conquistador de Jerusalém, Saladino, o Curdo, restabeleceria o islamismo para os próximos nove séculos. Vieram os mamelucos, a aristocracia feudal militar do Egito. E os turcos otomanos, a partir de 1517. Um deles, Suleimão, o Magnífico, devolveu um certo fulgor à cidade, reconstruindo as muralhas e seus portões, conservados até hoje.
A Turquia entrou na primeira guerra mundial com a Alemanha, em 1914. Foi o fim do Império Otomano. Tropas inglesas, comandadas pelo general Allenby, ocuparam a Palestina em 1917. Ao terminar o Mandato Britânico, a 14 de maio de 1948, Israel proclamou sua independência, decidida pelas Nações Unidas em 29 de novembro de 1947. Os países árabes atacaram. O armistício de 1949 criou duas Jerusalém – a cidade velha, ao norte e ao sul, sob o domínio da Jordânia, e a nova, a sudoeste e ocidental, com os israelenses. Tornaram-se uma, outra vez, com a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Al Khuds Yerushala#m, ‘‘A Santa Cidade da Paz’’. Seriam nome e sobrenome se árabes e judeus se unissem para compartilhá-la. A Bíblia (Zacarias, 8:3) a batizou de ‘‘Cidade da Verdade’’ – ela que está minada por contradições étnicas e religiosas. Cidade do ‘‘Verbo’’ – não do diálogo. ‘‘Cidade dos Espelhos’’ do escritor israelense Amos Elon – ‘‘espelhos que são metáforas que a verdade de cada religião atribui à cidade que reflete seu passado e seu presente’’. O guia Lonely Planet a elegeu ‘‘a mais fascinante cidade do mundo’’.
Tão celestial e tão terrena ao mesmo tempo! A cidade saturada de fé e religião também se tornou uma metrópole moderna. Antenas de TV e sinos de igreja, cúpulas de mesquitas e parabólicas, disputam o horizonte. A Bíblia já ganhou uma versão em CD-ROM na Terra Santa. Aonde pastavam rebanhos de cabras e camelos brota o vale do silício israelense, em franca expansão. As oliveiras estão dando chips. Mas o passado está presente. E por ele, palestinos e israelenses reclamam o direito a Al Kuds e a Yerushala#m. O Vaticano propõe a internacionalização de Jerusalém. Existem outras 56 diferentes propostas sobre como governá-la. Israel a unificou por lei constitucional, em 30 de julho de 1980. Mas, então, ela ganhou um novo destino com o aperto de mãos entre o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, em 1993.
Diz um provérbio em hebraico e árabe: ‘‘Melhor um vizinho próximo do que um irmão distante’’. E os vizinhos mais próximos são Al Kuds e Yerushala#m.
*(capítulo do livro Jerusalém: 3.000 anos pela paz, editora Jussara Gontow)

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