Sob intensa pressão do presidente Bill Clinton para chegarem a um entendimento mas incertos sobre sua capacidade política de vender e implementar o acordo de paz possível, negociadores israelenses e palestinos atravessaram a noite e todo o dia de ontem tentando salvar as conversações iniciadas há nove dias em Camp David.
Com as negociações previsivelmente empacadas no status de Jerusalém, que os dois lados reivindicam como capital espiritual e política, na noite de terça-feira Clinton adiou por 24 horas sua partida para a Cúpula do Grupo dos Oito, no Japão.
‘‘Não teríamos ficado se não pensássemos que havia alguma chance de ter um dia produtivo’’, disse o porta-voz da Casa Branca Joe Lockhart.
Mas logo pela manhã, os sinais de esperança num acordo evaporaram. Falando por intermédio de assessores em Israel, o primeiro-ministro israelense Ehud Barak anunciou que estava se preparando para deixar as negociações e regressar a Israel ‘‘porque os palestinos não são parceiros verdadeiros para a paz’’.
Pouco depois, uma rádio de Israel informou que o líder enviara uma carta ao presidente dos Estados Unidos na qual acusava os palestinos de não estarem negociando com boa-fé.
A expectativa dos israelenses era, claramente, que Clinton pressionasse Arafat a fazer concessões. Mas, num sinal de que poderia estar blefando, nove horas depois de ter mandado assessores dizerem que estava prestes a deixar Camp David, Barak continuava lá e a possibilidade de um acordo capaz de encerrar 52 anos de conflito entre palestinos e israelenses, ainda que distante, permanecia viva.
Apesar do blecaute de notícias que cerca o encontro desde o primeiro dia, um porta-voz da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Abdel Rahman, devolveu as acusações de Barak, dizendo que eram os israelenses que estavam sabotando as conversações com sua postura de ‘‘tentar ditar termos aos palestinos’’.
Ele acrescentou que o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, veio a Camp David para negiociar ‘‘uma paz justa e duradoura’’, com a qual palestinos e israelenses possam viver durante gerações.
Para Arafat, tal acordo de paz inclui necessariamente o reconhecimento da soberania sobre o setor árabe de Jerusalém, que foi tomado por Israel na Guerra dos Seis Dias e onde o Estado palestino que emergirá de um eventual acordo quer ter sua capital.
Mas Israel, que considera Jerusalém sua capital indivisível, resiste à reivindicação de soberania dos palestinos.
De acordo com as poucas informaçõs que vazaram, Barak estaria, no máximo, disposto a aceitar apenas algum tipo de esquema de autonomia palestina no setor árabe da cidade e a redesenhar o perímetro urbano de forma a anexar subúrbios árabes da Cisjordânia a Jerusalém e abrir espaço para a instalação da capital do novo Estado.
O status de Jerusalém é, desde o início, o maior obstáculo para um acordo de paz. Em Israel, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, israelenses e palestinos intensificaram ontem sua mobilização para rechaçar um acordo de paz que não lhes satisfaça.
Apesar das enormes dificuldades para se chegar a um entendimento, as consequências de um fracasso das negociações mantinham os negociadores em Camp David até o final da tarde de ontem.
Sem um acordo definitivo até o dia 13 de setembro, data-limite auto-estipulada por israelenses e palestinos, Arafat já disse que proclamará unilateralmente a criação de um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza.
Isso provavelmente levará a uma confrontação entre palestinos e os cerca de 200 mil colonos judeus que se fixaram na Cisjordânia nos últimos 25 anos.

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