Trair o pai. Negar sua figura. Ir contra a própria origem. As máximas edipianas poderiam ser aplicadas a Jacques Villeneuve, canadense, de 26 anos, que busca hoje o seu primeiro título mundial na F1. Não ser tratado como um piloto, como seu pai foi na mais pura forma, é tudo que ele deseja. ‘‘Corro para me divertir’’, não se cansa de repetir.
É difícil não ligar Jacques a Gilles, um dos mais míticos ferraristas, dono de uma legião de seguidores. É difícil não tratar Villeneuve como piloto. Afinal, ele trabalha para a melhor escuderia. E, mesmo parecendo ser uma tarefa impossível, ele faz questão de deixar essa opção clara a cada oportunidade que surge.
Foi assim que perdeu um milionário contrato de publicidade, pelo simples capricho de pintar os cabelos - a repentina mudança de imagem inviabilizou a campanha. Da mesma forma como se indispôs com a maioria de seus pares após o acidente do francês Olivier Panis em Montreal: ‘‘Lamentam por ele apenas porque estão preocupados com o que o público irá pensar. Não dou a mínima. Estou aqui para pilotar’’.
Villeneuve não é membro da GPDA, a associação de pilotos que foi ressuscitada após a morte de Ayrton Senna, em 1994. E, para piorar, assumiu solitário o papel de contestador.
Pouco antes, em maio, chamou o novo regulamento da F1 de ‘‘ridículo’’. Acabou advertido publicamente pela FIA. As explosões de temperamento causaram mal-estar, claro. E também a idéia de que Villeneuve faz força para ser diferente apenas para aparecer.
Equipe própriaO filho de Gilles, no entanto, é rápido e competitivo - e parece mentalmente mais bem preparado para ser campeão do que seu pai, que nunca conquistou um título. Deseja muito o campeonato e planeja até criar uma equipe própria na F1, com apoio da fabricante de chassi Reynard, que o acompanhou na Indy, onde foi campeão em 1995.
Algo que coroaria uma carreira iniciada aos 17 anos de forma previsível: em uma escola de pilotagem, no Canadá. Abandonou o colégio interno na Suíça, vagou pela Europa, em carros de turismo e na F3 italiana.
Só brilhou alguns anos mais tarde, quando foi vice na F-3.000 japonesa. Transferiu-se para os EUA, fez sucesso na F-Atlantic e acabou chegando à Indy. O título na série norte-americana e o sobrenome famoso lhe valeram um teste na Williams, que o contratou no final de 95. Quase venceu na corrida de estréia, na Austrália. Mas a primeira vitória só surgiria em Nurburgring, na Alemanha, coincidentemente após um duelo com Michael Schumacher.
Mas ao contrário do alemão, Jacques não é unanimidade. Levantar a taça na Espanha calaria os críticos. E talvez o convencesse de que ser um piloto, como seu pai, não é necessariamente uma idéia tão ruim. (J.H.M.)

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