Jacques Chirac, presidente da França de 1995 a 2007, morre aos 86 anos
Legado foi construído por questões pouco ideológicas, como a abolição do serviço militar obrigatório
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sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Legado foi construído por questões pouco ideológicas, como a abolição do serviço militar obrigatório
João Batista Natali – Folhapress 
São Paulo - Morreu nesta quinta-feira (26) o ex-presidente francês Jacques Chirac, aos 86 anos. A família não revelou a causa da morte. "Ele faleceu ao lado de seus entes queridos e em paz", disse seu genro, Frederic Salat-Baroux.

Chirac presidiu a França entre 1995 e 2007 e, antes, foi prefeito de Paris. Ele foi o mais competente "animal político" da França das últimas décadas. Respirava negociações ou formulações de diretrizes durante as 24 horas do dia. Demonstrava uma energia obsessiva.
Mas não teve, como presidente da França, a mesma estatura de estadista de dois de seus mais conhecidos predecessores: o liberal Charles De Gaulle, que pôs fim à Guerra da Argélia, e o socialista François Mitterrand, arquiteto de uma União Europeia aprofundada pelo Tratado de Maastricht.
Ele exerceu dois mandatos presidenciais, de 1995 a 2007. Foi por duas vezes primeiro-ministro e, durante 18 anos, prefeito de Paris (a lei francesa permite a acumulação de cargos). Num país politicamente polarizado desde o final do século 18, Chirac foi, por fim, um bom síndico das ambições da direita francesa.
O curioso é que seu legado como presidente foi construído por questões pouco ideológicas, quase consensuais. Foi o caso da abolição do serviço militar obrigatório, da queda em 40% das mortes no trânsito ou da construção, no Quai Branly, em Paris, de um belíssimo museu internacional de antropologia.
Prosseguiu com a reaproximação da França com a Otan (aliança militar ocidental), engajando contingentes franceses em Kosovo (1999) e no Afeganistão (2001). No entanto, se opôs à invasão americana do Iraque (2003), sem provas concretas de que o ditador Saddam Hussein estava envolvido com o terrorismo ou tinha armas de destruição em massa.
No episódio, ao enfrentar o presidente americano George W. Bush e o premiê britânico Tony Blair, Chirac se agigantou internacionalmente e, por momentos, refletiu uma França unificada, sem a eterna fratura entre esquerda e direita.
Foi também por iniciativa dele que o referendo de 2005 enterrou o projeto que dotaria a União Europeia de uma Constituição, o que levaria a uma confederação de Estados com poderes bem mais reduzidos que os atuais.
Jacques Chirac teve também seu nome ligado a escândalos ruidosos de corrupção. O principal deles foi o dos funcionários fantasmas da Prefeitura de Paris, mas com salários que alimentavam o caixa dois do partido do prefeito. Um tribunal o condenou em 2011 a dois anos de prisão, mas houve suspensão da pena. Documento dos serviços secretos mencionaram, em 1996, a existência de uma conta bancária de Chirac no Japão. Depois de informações e declarações contraditórias, a denúncia foi arquivada.
Ao ser eleito presidente pela primeira vez, em 1995, Chirac tornou-se objeto de meia dúzia de biografias não autorizadas, que traçavam dele perfis absolutamente díspares. Algumas o viam como generoso, altruísta. Outras como pérfido e vingativo. Todos coincidiam, no entanto, ao apontá-lo como ambicioso.
ELITE
Nascido em Paris, em 29 de novembro de 1932, Jacques Chirac passou por duas das instituições que formam a elite da burocracia do Estado francês, a Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) e a Escola Nacional de Administração. Em poucos anos, saltou de oficial de gabinete a ministro da Agricultura. Cresceu paralelamente no RPR, o então partido neogaullista.
Em 1974, apoiou na sucessão presidencial o então presidente da Assembleia Nacional, Jacques Chaban-Delmas, que não chegou ao segundo turno em que o liberal Valéry Giscard d´Estaing derrotou o socialista François Mitterrand. Chirac movimentou seus peões no tablado do neogaullismo. Sabia que Chaban-Delmas estava liquidado. Com isso, foi Chirac que Giscard nomeou primeiro-ministro.
Demitiu-se da chefia do governo, afastou-se de Giscard e montou sua máquina eleitoral para enfrentar o presidente, que tentou se reeleger em 1981. Mas sua candidatura não chegou ao segundo turno, no qual foi eleito o socialista Mitterrand.
Nas eleições legislativas de 1986, a esquerda ficou em minoria. Mitterrand então encarregou Chirac de formar o novo governo. Concorreu contra Mitterrand e foi derrotado por ele nas presidenciais de 1988. Nas legislativas imediatamente convocadas, os socialistas reconquistaram a maioria das cadeiras da Assembleia Nacional.
Chirac tinha na Prefeitura de Paris um espaço político privilegiado. A cidade ganhou autonomia política. Tornou a capital uma cidade muito mais atraente, com descontos no imposto predial para a restauração de fachadas.
Veio a eleição presidencial de 1995 e Mitterrand não conseguiu mobilizar as esquerdas. Chirac se elegeu presidente ao derrotar o socialista Lionel Jospin. Mas seu bloco saiu em minoria nas legislativas de 1997, o que obrigou Chirac a indicar um socialista como primeiro-ministro. E o próprio Jospin assumiu a chefia do governo.
Nas presidenciais de 2002, Jospin estava em terceiro lugar. Chirac enfrentaria no segundo turno o líder da direita radical, Jean-Marie Le Pen. A esquerda votou em peso em Jacques Chirac, que foi reeleito com 82% dos votos.


