Israel pede desculpas à Suíça por violação
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 1998
Reuter 
France PresseO porta-voz do Ministério do Exterior suíço, Franz Egle, dá entrevista sobre o pedido de desculpas de Tel AvivCedendo à exigência da Suíça, Israel pediu ontem desculpas formais pela fracassada missão de espionagem realizada na semana passada pelo Mossad (serviço secreto israelense) em Berna.
Israel apresenta suas desculpas pelo incidente e pelas complicações causadas ao governo suíço, afirmou o diretor-geral do Ministério de Relações Exteriores, Eitan Ben-Tsur, numa carta enviada ao presidente e chanceler suíço, Flavio Cotti.
Na carta, divulgada pela chancelaria israelense, Ben-Tsur expressa a esperança de que prossigam as boas relações bilaterais e procura justificar a espionagem: O terror é uma ameaça contínua à segurança de Israel e de seus cidadãos, assim como ao processo de paz e à estabilidade no Oriente Médio.
Segundo a Rádio Israel, o pedido de desculpas foi a condição imposta pelo governo suíço para libertar um agente israelense preso durante a operação do Mossad.
Um porta-voz de Cotti, Franz Egle, disse que o presidente considerou a carta de Ben-Tsur um passo positivo, mas acrescentou: Aquele incidente foi uma séria e inaceitável violação da soberania suíça. Segundo Egle, Cotti ainda decidirá, à luz dos acontecimentos, se adia ou não sua visita a Israel, prevista para maio.
Fontes políticas israelenses disseram que estão em andamento esforços para que o agente preso seja rapidamente expulso da Suíça.
O novo fiasco da espionagem israelense ocorreu na madrugada do dia 19, quando cinco agentes do Mossad (duas mulheres e três homens) foram pegos em flagrante pela polícia tentando colocar equipamentos de escuta num edifício onde reside, segundo jornais suíços e israelenses, um suposto militante integrista islâmico ligado ao Irã.
Três estavam no subsolo do edifício e os outros vigiavam a entrada. A polícia, que fora alertada por vizinhos que haviam suspeitado da movimentação, acabou liberando pouco depois quatro dos suspeitos, mantendo detido apenas o que carregava os equipamentos de escuta e uma valise tipo James Bond.
Segundo os jornais israelenses Haaretz e Maariv, os agentes portavam passaportes israelenses e tinham a chave do edifício, mas não primaram pela discrição: eles chegaram de carro ao local e falavam em hebraico em voz alta, o que chamou a atenção dos vizinhos.
Uma moradora suíça do edifício foi ao subsolo ver o que estava acontecendo e deparou-se com três dos espiões, dois homens e uma mulher de boa aparência, todos na faixa dos 20 anos.
Um agente alegou então que se estava divorciando e fora até ali para dormir com sua amante. Ele disse que, por falta de alternativa, ele e a garota decidiram dormir ali, afirmou a testemunha, citada pelo Maariv. Pedindo que não fosse identificada por temer represálias, ela prosseguiu: Então chegaram dois carros da polícia e, de repente, um dos jovens caiu e começou a dizer que estava tendo um ataque cardíaco. Vi imediatamente que ele estava mentindo. Apesar disso, chamaram uma ambulância. Mas eu estava certa e, no dia seguinte, a polícia confirmou que o problema de saúde era uma farsa.
O grupo xiita libanês pró-iraniano Hezbollah negou ontem que o alvo da operação tenha sido um de seus membros. O governo suíço garantiu ao embaixador iraniano Kia Tabatabai que o alvo também não era a embaixada do Irã - nem seus diplomatas. Mesmo assim, autoridades iranianas criticaram Berna por tentar acobertar o caso.
A Suíça só admitiu ter ocorrido o incidente depois que a imprensa israelense o noticiou. As TVs estatal e particular de Israel, por sua vez, foram informadas do caso pelo então chefe do Mossad, Danny Yatom, que pediu que a história não fosse divulgada. A emissora estatal, porém, noticiou o episódio. Por isso, a TV particular, o Canal 2, anunciou ontem que está abandonando um velho comitê de censura voluntária - do qual saíram em 1995 os jornais Haaretz e Yediot Ahronot -, que é informado costumeiramente pelo governo sobre questões sensíveis, mas instruído a não as noticiar por motivos de segurança nacional.
O fracasso em Berna provocou a queda de Yatom, que já fora responsabilizado, numa investigação governamental, por um fiasco do Mossad em setembro - quando dois agentes foram presos em Amã após tentar matar um líder do grupo palestino Hamas.
Segundo a imprensa israelense, Yatom será substituído pelo general Aviram Levine, de 51 anos. Há três anos ele comanda o setor norte do Exército, que inclui as tropas de ocupação no sul do Líbano.
O caso lembra a prisão, em 1991, de quatro supostos agentes do Mossad que tentavam grampear a embaixada iraniana em Chipre no meio da noite. Na ocasião, eles alegaram que estavam procurando um banheiro. Um juiz determinou que cada um pagasse US$ 1 mil de multa e libertou todos.


