Iraquianos fugindo do EI usam o Brasil para tentar chegar à Europa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de fevereiro de 2015
Agência Estado 
GENEBRA E PARIS - Refugiados iraquianos estão utilizando o Brasil como rota para tentar chegar à Europa. Segundo observadores da ONU que diariamente acompanham o fluxo de milhares de pessoas que deixam a Síria e o Iraque por conta do avanço do Estado Islâmico (EI), os imigrantes seguem a pé do Iraque para a Turquia, onde embarcam para São Paulo. No Brasil, viajavam de ônibus para a vizinha Guiana Francesa, de onde voam para Paris. Na França, a maioria segue para a Alemanha.
No final de janeiro, os primeiros resultados dessa nova rota já começaram a ser identificados. Um grupo de 16 cristãos iraquianos foi bloqueado na Guiana Francesa, oriundos do Brasil e tentando embarcar para Paris. Eles são todos de Mossul, no norte do Iraque, e deixaram suas casas em agosto do ano passado diante do avanço do Estado Islâmico. Fiéis de uma religião pré-islâmica, eles seriam perseguidos pelos islamistas radicais.
O grupo comprou passaportes falsos de contrabandistas e se apresentaram como israelenses e gregos. Depois de um percurso total que soma mais de 10 mil quilômetros, o objetivo dos imigrantes seria desembarcar no aeroporto de Orly, na periferia de Paris, e de lá embarcar para a Alemanha, onde se uniriam a outro grupo de yazidis que pediu asilo no país.
Em 25 de janeiro, quando tentavam embarcar para a Europa, eles foram retidos pela Polícia de Fronteiras (PAF) na França. Durante dois dias, as autoridades francesas negociaram a deportação para o Brasil, o último país de passagem. "Houve de fato um grupo de iraquianos que entrou no Brasil com passaportes fraudados de nacionalidades que não precisam de visto para entrar no país. Os franceses os detiveram em Caiena, capital da Guiana Francesa, e pensaram em deportá-los para o Brasil, mas decidiram finalmente dar asilo", confirmou ao Estado uma fonte diplomática do Itamaraty.
Após a recusa do governo brasileiro em aceitá-lo de volta, o grupo recebeu auxílio da Cimade, uma organização não-governamental francesa que presta auxílio a refugiados políticos e imigrantes. Um pedido de asilo político foi feito na semana passada ao Escritório Francês para a Proteção de Refugiados e Apátridas (Ofpra). O caso é tratado pelo Ministério do Interior da França, que ainda não se manifestou sobre o assunto. À espera de uma posição, os iraquianos estão retidos em um hotel em Caiena, à espera de uma solução diplomática.
Escolha. A escolha de uma rota mais longa seria resultado da política da Europa de fechar suas fronteiras, dificultando o acesso de refugiados ao território.
Observadores da ONU alertam que, diante das mortes frequentes em barcos que cruzam o mar Mediterrâneo e da dificuldade em se chegar à Europa por caminhos tradicionais, muitos deles começam a criar novas rotas de fuga.
Uma delas tem sido o uso da conexão aérea entre Istambul e São Paulo, seguindo depois por terra ou avião e com a ajuda de organizações criminosas que fabricam passaportes falsos. Algumas dezenas de pessoas já teriam usado a rota.
Grupos de cristãos e yazidis cruzam a fronteira com a Turquia e, dali, embarcam para o Brasil. O passo seguinte é seguir muitas vezes de ônibus ou de avião até Belém do Pará e, depois, para a Guiana Francesa. Dali, um voo até Paris marca o fim de uma jornada que pode levar meses e chega a custar 14 mil euros pagos aos grupos criminosos.
Os primeiros casos foram identificados ainda no final de 2014, principalmente por agências que se ocupam dos refugiados na Europa. O custo da viagem e sua duração deixaram os especialistas preocupados. Logo, a informação chegou até as autoridades europeias que, rapidamente, passaram a controlar de forma mais ostensiva o embarque de pessoas em Caiena.
"Com as dificuldades para conseguir asilo na Europa, os refugiados estão sendo obrigados a tomar rotas cada vez mais perigosas, longas e caras", declarou William Spindler, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. "O Acnur pede que se busquem opções legais para esses refugiados irem para a Europa", declarou.
Para a ONU, parte do problema está na Europa. Diante de uma guerra na Síria que fez milhões de refugiados e de um número recorde de imigrantes chegando em 2014, o bloco endureceu seus controles nas fronteiras.
O resultado é que países que servem como portas de entrada, como Grécia e Itália, acabaram sendo inundados por iraquianos e sírios. Dados publicados esta semana pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados indicam que 43,5 mil pessoas desembarcaram na Grécia em 2014, fugindo de conflitos e na esperança de entrar na UE. O volume é 280% superior ao de 2013 e cerca de 60% deles vem da Síria ou Iraque.
Para Antonio Guterres, diretor do Acnur, a Europa precisa considerar a imposição de um sistema de cotas em cada país, obrigando governos a aceitar parte dos refugiados que chegam até a Grécia e Itália. Segundo ele, se muitos entram pelo Sul, 50% de todos os pedidos de asilo foram formulados por esses mesmos grupos na Alemanha ou Suécia.


