Depois de sete anos de sanções internacionais e gradual degradação da economia, o Iraque se encontra hoje numa catastrófica situação humana, da qual várias gerações sairão marcadas, estimam especialistas das Nações Unidas.
O embargo imposto depois da invasão do Kuwait, em agosto de 1990, afeta cada vez mais as crianças, leva a uma degradação da infraestrutura e ameaça o tecido social.
‘‘Agora se alcança um nível crítico do qual várias gerações sairão marcadas para sempre’’, declarou Eric Falt, porta-voz do coordenador das atividades humanitárias da ONU no Iraque.
O Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, propôs uma transformação espetacular do acordo por alimentos, que permite ao Iraque, desde dezembro de 1996, a exportação do equivalente de dois bilhões de dólares. Esses recursos permitem importar alimentos, medicamentos e produtos de primeira necessidade. Suas recomendações, bem acolhidas pelo Conselho de Segurança, elevam o nível de exportações para 5,2 bilhões e a aprovação dos contratos de importação se fará da forma mais rápida.
A mortalidade infantil passou de 61 em cada 1.000, em 1990, a 117 em 1996, segundo cifras das Nações Unidas. A porcentagem de recém-nascidos de menos de 2,5 kg passou de 9%, em 1991, a 26% atualmente. Uma terça parte das crianças com menos de cinco anos sofrem com desnutrição crônica.
‘‘Vocês podem fazer uma idéia dos danos infligidos a esta geração. As crianças jamais vão alcançar sua estatura normal’’, disse o dr. Habib Rejeb, representante da Organização Mundial da Saúde.
Um estudo da UNICEF, publicado em outubro passado, acha que um quarto dos meninos já não vão à escola.
Segundo cifras do ministério iraquiano da Saúde, que a ONU leva em consideração, o país conta com menos de 4% dos medicamentos necessários, enquanto que o número de intervenções cirúrgicas baixou 17% em um ano, indicou Falt.
O acesso à água potável está muito comprometido, com taxas de contaminação que alcançam 40%. E, em inúmeras regiões, as águas não sofrem tratamento.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) contribuiu para reparar as 25 estações de bombeamento de Basra, metrópole meridional do Iraque. Mas a usina de tratamento das águas está fora de serviço e as águas fornecidas jorram no deserto, indicou Manuel Bessler, delegado do CICR.
O sistema elétrico se encontra à beira da ruína, acrescentou Falt.
Apesar de todos os esforços do governo para desenvolver a agricultura, a ONU acha que a atual produção desse setor está muito abaixo do nível de produção de 1991. E, nessa época, a produção iraquiana só abastecia uma terça parte de seu consumo.
‘‘No fim, a sociedade se desintegra, com a queda do Estado e dos serviços, segundo Falt. Sete anos de sanções transformaram alguns de nossos cidadãos honrados em ladrões; os roubos, o assassinato e a traição converteram-se em moeda corrente no país’’, enfatiza Wamidh Omar Nadhmi, professor da Universidade de Bagdá.

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