São Paulo - O Conselho de Governo Iraquiano decidiu ontem adiar a assinatura de uma Constituição interina devido aos ataques contra xiitas e ao início de três dias de luto. O presidente do Conselho, Mohammed Bahr al Uloum, afirmou que subiu para 271 o número de mortes nos atentados ocorridos anteontem na capital, Bagdá, e na cidade de Karbala.
A série coordenada de ataques suicidas e atentados com morteiros aconteceu no dia em que os xiitas celebravam o feriado religioso da Ashura. A escolha da data que marca a morte do imã Hussein, neto de Muhammad, em uma batalha em Karbala e é um dos principais eventos do calendário xiita para a execução dos atentados dá corpo ao temor de que terroristas islâmicos estejam buscando fomentar uma guerra civil.
A assinatura da Constituição interina é vista como um passo fundamental nos planos americanos de devolver a soberania aos iraquianos em 30 de junho. ''Houve um acordo de adiá-la, mas a data exata ainda não foi acertada', afirmou um porta-voz do Conselho de Governo Iraquiano. ''A lei está pronta, e foi só por causa disso (os ataques) que foi adiada.'
Após os atentados, lideranças xiitas, grupo que congrega cerca de 60% da população iraquiana, pediram calma. Mas diversos membros do Conselho de Governo Iraquiano relacionaram o episódio a uma carta apreendida em janeiro na qual um militante islâmico, supostamente Abu Musab al Zarqawi, pedia a ajuda da Al Qaeda (a rede terrorista responsável pelo 11 de Setembro) para detonar um confronto entre a maioria xiita, reprimida durante a ditadura sunita de Saddam Hussein (1979-2003), e a minoria sunita. A celebração da Ashura era proibida no regime deposto.
Zarqawi, cuja cabeça foi posta a prêmio por Washington por US$ 10 milhões, é considerado pelos Estados Unidos o ''suspeito número um' dos atentados de agosto de 2003 em Najaf (centro) e contra as instalações da ONU (Organização das Nações Unidas) em Bagdá. O aiatolá Ali al Sistani, principal líder xiita do país, emitiu um comunicado oficial pedindo união e criticando os americanos por não ter havido reforço de segurança para as celebrações.
Ontem a rede terrorista Al-Qaeda, de Osama bin Laden, negou qualquer responsabilidade nos atentados da véspera, em um comunicado que lhe é atribuído pelo jornal árabe Al-Qods Al-Arabi e do qual a France Presse obteve uma cópia. ''Nada temos a ver com esses atos'', afirma o comunicado, datado de 2 de março e assinado pela ''Brigadas Abu Hafs/Al-Qaeda''.
O administrador americano no Iraque, Paul Bremer, anunciou ontem que vai reforçar a presença de forças da segurança nas fronteiras do país. ''Há 8 mil guardas de fronteira em serviço hoje e outros tantos são esperados'', declarou Bremer. ''Estamos prestes a acrescentar centenas de veículos e dobrar o número de guardas em algumas zonas'', disse. ''Os Estados Unidos desbloquearam US$ 60 milhões para apoiar a segurança nas fronteiras''.

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