A gigantesca festa que se seguiu no Irã ao jogo histórico contra os Estados Unidos no domingo se traduziu, muito além da bebedeira da vitória (2 a 1), no desejo de mudança e abertura da sociedade prometida pelo presidente reformista Mohammad Jatami.
Logo após o apito final da partida, milhares de iranianos saíram às ruas de Teerã para cantar e dançar até o alvorecer, dando à austera capital iraniana aspectos do carnaval brasileiro.
Este entusiasmo, particularmente nos jovens, confirma de maneira espetacular o desejo da evolução e da mudança na sociedade iraniana, nos momentos em que Jatami enfrenta uma violenta ofensiva dos conservadores, com muita força no regime.
Jatami foi eleito em maio do ano passado com 70% dos votos, na base de um programa que pretende dar a palavra à sociedade civil, aos jovens e às mulheres em particular, com a finalidade de movimentar o sistema.
Na noite de anteontem e madrugada de ontem, foram vistas em Teerã cenas inimagináveis há somente um ano. Em alguns bairros, rapazes e moças dançavam em cima dos carros escutando música.
Como um sinal dos conflitos que agitam a classe política e a sociedade iranianas, os deputados conservadores, que controlam o Parlamento, deram um severo golpe no governo de Jatami ao aprovar anteontem a demissão do ministro do Interior, Abdolá Nuri.
Esta destituição, algumas horas antes da partida, constituiu um revés para a política de reformas e figurou com a mesma importância da vitória do Mundial na primeira página da imprensa iraniana.
O jogo com os Estados Unidos, embora ao acaso devido a um sorteio, apoiou a estratégia de Jatami, ‘‘de abrir um buraco no muro da desconfiança’’ entre os dois países, multiplicando os intercâmbios culturais, esportivos e turísticos.
O fair-play entre jogadores no gramado do estádio Gerland de Lyon permitiu ao Irã, de acordo com o desejo de Jatami, mostrar outra imagem do país, diferente daquela de multidões revolucionárias gritando ‘‘Morte aos Estados Unidos’’.
Mas transformar esta vitória esportiva em abertura diplomática não será uma coisa fácil.
A partir de ontem, os ‘eslogans’ hostis aos Estados Unidos reapareceram em vários bairros de Teerã.
Cartazes com os dizeres ‘‘Marg bar amrica’’ (Morte aos Estados Unidos) eram vistos tanto nas paredes da zona norte residencial como no centro da cidade.
O apelo à busca de uma normalização, lançado pelos Estados Unidos antes da partida, não teve eco em Teerã.
Em sua mensagem de felicitação aos jogadores iranianos, o guia da República e número um do regime, o aiatolá Ali Khamenei, não poupou palavras amargas em relação aos Estados Unidos, afirmando que ‘‘o opressor experimentou mais uma vez o gosto amargo da derrota’’.
O ex-presidente Ai Akbar Hachemi-Rafsanjani, por sua parte, manifestou suas ‘‘dúvidas’’ sobre a ‘‘sinceridade’’ dos Estados Unidos em seu desejo de sair de vinte anos de desconfianças.
Em uma mensagem televisada, Jatami mostrou-se conciliador, afirmando que esta vitória foi ‘‘da união nacional de todos os iranianos, sem levar em conta suas opiniões’’, embora não tenha querido evocar o aspecto altamente simbólico no plano diplomático do jogo.

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