Irã dividido nos 20 anos da Revolução
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de janeiro de 1999
Christophe de Roquefeuil France-Presse 
As autoridades iranianas festejam, a partir de amanhã, o vigésimo aniversário de sua revolução islâmica em um ambiente dividido em relação à política a ser aplicada para manter a herança do aiatolá Khomeini.
Vinte anos depois de sua fundação e dez anos após a morte de Khomeini, o regime islâmico tem intenções de festejar com grande pompa esta data.
As cerimônias terão lugar a partir de amanhã, data da volta triunfal de Khomeini a Teerã, até 11 de fevereiro, quando o último governo da monarquia, dirigido por Shapur Bajtiar, foi derrubado.
Esta Década da Aurora, segundo a terminologia oficial, dará lugar a duas mil manifestações de vários tipos em todo o país, anunciaram as autoridades.
As afirmações de fidelidade aos princípios do regime que marcarão os discursos oficiais não conseguiram esconder as tensões que dividem os herdeiros de Khomeini.
A onda de assassinatos de opositores e intelectuais, que teve lugar no final do ano passado e na qual os agentes dos serviços secretos estão diretamente envolvidos, mergulhou bruscamente o país na atmosfera das horas mais sombrias da repressão pós-revolucionária.
Depois dos festejos, o Irã deverá vivenciar, no final de fevereiro, as primeiras eleições municipais de sua história, o que já provoca enfrentamentos entre os diversos grupos político-religiosos.
As celebrações serão dirigidas por dois homens surgidos do clero e que encarnam, simultaneamente, a continuidade e os conflitos do regime.
O primeiro, o aiatolá Alí Khamenei, assumiu em 1989 sucedendo Khomeini com Guia Supremo do país. Este encarna o poder teocrático e defende a tradição e a ortodoxia revolucionárias.
O segundo, Mohamad Khatami, um religioso de hierarquia intermediária e que foi presidente da República, em maio de 1997, assim como ministro da Cultura de Khomeini, se impôs como o paladino das mudanças as quais considera necessárias para permitir que o regime se prepare para os desafios futuros.
O país governado por estes dois homens começa a sair com dificuldade do isolamento internacional no qual a revolução o fez mergulhar.
Dez dias decisivos Entre o regresso triunfal à Teerã do aiatolá Komeini e a partida precipitada do governo do xá, foram suficientes apenas dez dias para sepultar vinte e cinco séculos de monarquia no Irã.
Em 1º de fevereiro de 1979 começou a década da aurora, de acordo com a terminologia oficial, com o retorno de Komeini, a bordo de um avião da Air France.
Centenas de milhares de pessoas o aclamaram no aeroporto, assim como no trajeto até o cemitério de Behecht-e-Zahra, ao sul de Teerã, onde aconteceu seu primeiro grande comício político.
Fortalecido pelo imenso apoio popular e uma legitimidade política reforçada durante quase quinze anos de exílio, Komeini mobilizou as massas numa série de manifestações, ameaçando o frágil governo de Chapur Bakhtiar, chamando todos para o Jihad (a guerra santa).
Para o imã, não restava outra opção à Bakhtiar senão a renúncia e a entrega ao povo. O xá Mohammed Reza Pahlevi, já havia fugido, abandonando o país em 16 de janeiro.
No meio disto, os membros do grupo de Komeini formaram um Conselho da Revolução para preparar a mudança de governo e dar o passo final que seria a criação da República Islâmica.


