Insatisfação popular aumentou pressão sobre governo do Irã
Para dentista radicada em Londrina, o ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel foi o estopim para deflagrar revolução
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sábado, 14 de março de 2026
Para dentista radicada em Londrina, o ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel foi o estopim para deflagrar revolução

A insatisfação da população do Irã, principalmente os jovens, com o governo teocrático era uma panela de pressão na iminência de eclodir. Essa foi a impressão da dentista Shiva Rastegari Majzoob, baha’i iraniana radicada em Londrina, em sua última visita de três meses à terra natal, em março de 2023. O ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel apenas foi o estopim para deflagrar a revolução.
Shiva veio para o Brasil em 1986, aos 18 anos, fugindo da teocracia que se instalou no Irã após a Revolução Islâmica sete anos antes. Seguidora da fé bahá’i, a iraniana precisou fugir pelo deserto para obter um passaporte internacional e buscar refúgio em outro lugar, conforme já contou a FOLHA em 2016.
O islamismo tomou o poder no Irã em 1979, após o episódio conhecido como Revolução Islâmica. À época, a expectativa dos iranianos era dar um fim ao governo autocrático do Xá Mohammad Pahlevi. Porém, o que veio a seguir foi outro governo autoritário, com viés teológico, comandado por Ruhollah Khomeini.
A teocracia instaurada no Irã levou o país a impor costumes do islamismo e elegeu os Bahá’i como adversários. Fundada a partir do zoroastrismo, a fé bahá’i prega a união de todos os povos e a convivência entre religiões, o que, segundo Shiva, entrou em choque com o modelo teocrático estabelecido após a revolução. “Os baha’i não acreditam num clero, no poder do sacerdócio. E quem não segue um clero, o governo iraniano automaticamente considera um inimigo”, explica.
De acordo com a dentista, a perseguição aos bahá’ís ocorre de forma sistemática desde 1979. Ela afirma que seguidores da religião não têm acesso às universidades do país e frequentemente enfrentam restrições legais e sociais. Por isso, muitos jovens acabam deixando o Irã para estudar no exterior. Foi o que ocorreu com ela, que decidiu sair do país ainda na adolescência.
Durante a última visita à terra natal, Shiva relatou ter encontrado um cenário de crise econômica e desigualdade. Segundo ela, a inflação e a perda do poder de compra atingem grande parte da população, enquanto recursos do país estariam concentrados entre grupos ligados ao governo. “Vi pessoas instruídas procurando comida no lixo de um supermercado. É algo muito triste”, contou.
A insatisfação também se manifesta entre os jovens, que, segundo a iraniana, questionam restrições impostas pelo regime, como regras rígidas de vestimenta e limitações à liberdade individual. Entre os exemplos citados está a obrigatoriedade do hijab — o véu que cobre a cabeça das mulheres — além de outras normas sociais que, na visão dela, já não encontram respaldo entre as novas gerações.
Outro fator apontado por Shiva é a busca crescente pela identidade persa anterior à Revolução Islâmica. Segundo ela, símbolos e referências culturais da antiga Pérsia voltaram a aparecer no cotidiano dos iranianos, como forma de reafirmar uma identidade nacional. “Os persas deram muita contribuição para a ciência, as artes e a arquitetura. Isso foi esquecido e só é lembrada a imagem de bomba, de extremismo, de radicalismo”, lamenta.
Apesar do descontentamento popular, a iraniana avalia que o futuro político do país ainda é incerto. Segundo ela, parte da população teme repetir erros do passado que levaram à Revolução de 1979 e resultaram em um novo regime autoritário.
“Existe um desejo de mudança, mas também um medo de que tudo se repita. O povo quer liberdade, quer viver uma vida normal. A grande questão é como chegar a isso”, afirmou.


Luis Fernando Wiltemburg
Repórter de Cidades.



