Infração de 1976 pode prejudicar Bush
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sexta-feira, 03 de novembro de 2000
Paulo Sotero Agência Estado De Washington 
Com o governador do Texas, George W. Bush, que lidera as pesquisas, subitamente posto na defensiva pela revelação de que 24 anos atrás ele foi preso por dirigir bêbado, pagou multa e teve sua carteira de motorista temporariamente suspensa no Estado de Maine, a disputa pela Casa Branca entrou em seu derradeiro fim de semana mais imprevisível do que nunca.
Uma projeção interna da campanha dos dois candidatos indicava a possibilidade de a mais acirrada campanha presidencial em quatro décadas terminar com um empate no colégio eleitoral, que tecnicamente define o resultado da eleição. De acordo com essa estimativa, apenas os estados de Washington e Maine estariam ainda em jogo e Bush e Gore receberiam 269 votos eleitorais cada.
Na hipótese de ocorrer um empate no colégio eleitoral, a Constituição dos Estados Unidos estabelece que a decisão passe para a nova Câmara de Representantes que será escolhida na terça-feira, numa eleição em que cada um dos 50 estados e o Distrito de Columbia têm direito a um voto. Neste cenário, venceria Bush, que deve bater Gore num maior número de estados.
Mas vários analistas continuavam a projetar ontem a alternativa ainda mais extraordinária de Gore perder para Bush na briga pelos votos dos americanos, mas batê-lo na disputa dos 538 votos do colégio eleitoral. Essa inversão já ocorreu em duas eleições no século passado, 1876 e 1888, e por muito pouco não se repetiu em 1976, quando o então governador da Geórgia, Jimmy Carter, impediu a reeleição do presidente Gerald Ford, obtendo 297 votos a 240 no colégio eleitoral e uma margem de 1,6 milhão de sufrágios na votação popular.
A possibilidade da não coincidência entre as duas votações se repetir agora está sugerida nas pesquisas, que mostram o apoio a Gore concentrado nos estados mais populosos e que têm maior peso no colégio eleitoral. Um fator importante nessa equação é que Bush deve vencer em seu Estado, o Texas, que é o terceiro maior do país, com uma vantagem de mais de 2 milhões de votos sobre Gore.
É nesse quadro de indecisão, no qual cada voto pode significar a diferença entre a vitória e a derrota para os dois candidatos, que a revelação do pecadilho que Bush cometeu quando tinha 30 anos de idade pode ter um impacto negativo para sua campanha.
Ciente disso, Bush confirmou a história tão logo ela foi publicada por uma afiliada da rede Fox de televisão no Maine.
Fui muito cândido sobre meu passado, disse ele, iniciando uma operação de controle de danos, em que não faltaram insinuações de que a informação teria sido desenterrada pelo adversário. A campanha de Gore negou.
É improvável que os americanos mudem sua opinião sobre Bush porque ele foi preso por dirigir alcoolizado, mais de duas décadas atrás. Mas o fato de Bush ter preferido não revelar o episódio no início da campanha, como fez Gore sobre o uso de maconha em seus tempos de universidade, poderia prejudicá-lo entre os 7% a 8% de eleitores que permanecem indecisos, por um par de razões.
Uma é que o episódio desvia a atenção e a energia de sua campanha de seu objetivo principal no momento crucial da disputa. A outra é que pode desacreditar os ataques que o candidato republicano começou a fazer, nos últimos dias, à credibilidade do presidente Bill Clinton e de Al Gore, mostrando que ele é um político igual aos outros quando se trata de esconder aspectos embaraçosos de sua vida privada. Bush, que disse ter abandonado completamente o álcool há 14 anos, alegou que preferiu não falar sobre o assunto, no início da campanha, por causa de suas duas filhas adolescentes, que ignoravam o episódio até hoje.
Entre estas coisas, há alegações de uso de drogas na juventude, sobre as quais o governador negou-se até hoje a falar, quando perguntado por jornalistas, usando suas filhas como escudo. Com a disputa apertada como está, a revelação do episódio de sua prisão pode abrir espaço para seus adversários democratas explorarem os aspectos menos edificantes de sua juventude.
Gore e Bush deverão percorrer nada menos que 17 estados nas 72 horas finais na maratona presidencial, que só terminará na madrugada da terça-feira.


