Nem mesmo os mais otimistas poderiam imaginar que em 1996, finalmente, a inflação estaria domada e atingiria os níveis mais baixos dos últimos 40 anos. Índicadores já divulgados, como o IGP-M da FGV e o IPCA-E do IBGE, bem como as previsões feitas neste final de ano pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, indicam que a inflação do ano ficará em torno dos 9%, o que representa a quarta menor taxa apurada no Brasil desde 1947, quando o acumulado anual foi de 2,73%, subindo no ano seguinte para 7,95%. O terceiro menor índice brasileiro é de 39 anos atrás, em 1957, quando foi de 2,5%.
O mais surpreendente é que esta situação ocorreu apesar de não terem se concretizado as necessárias reformas estruturais e de persistir o enorme déficit da União. O Executivo federal tentou, ao longo de todo o ano, dar sequência às reformas, mas esta foi uma batalha cada vez mais difícil e que acabou ficando ainda pior quando entrou em cena a emenda constitucional que visa permitir a reeleição dos chefes do Executivo.
Logo no começo do ano, enquanto as primeiras notícias sobre a tendência da inflação eram muito alentadoras, começavam os apelos do presidente, seguido também dos empresários, para que o Congresso votasse, rapidamente, as reformas. Apelos não faltaram. Nem entendimentos, incluindo a participação de lideranças sindicais. Mas o Congresso, com as dificuldades naturais do tema e as eleições municipais no meio do caminho, não completou sua tarefa.
O ano começou com uma inflação de 1,73% pelo IGP-M, uma taxa muito alta. Mas, felizmente, foi apenas um refluxo do final do ano anterior. Depois, apesar do fracasso no esforço para implemetar as reformas, os índices foram caindo. Em março, a Fipe registrava em São Paulo 0,40 de inflação em fevereiro, a menor em 24 anos. O IGP foi um pouco maior, 0,97%.
Em fins de março, o presidente Fernando Henrique Cardoso antecipava um índice de 15% para a inflação do ano, um percentual considerado otimista na época. Mas os números continuavam a cair. Naquele mesmo mês, a Fipe anunciava 0,23%, o menor índice em 37 anos.
Nem as mudanças na área política afetavam isto. O ministro José Serra saiu do Ministério do Planejamento em fins de maio, para concorrer à Prefeitura de São Paulo, sendo substituído pelo deputado Antônio Kandir. E a pequena adesão à greve de protesto nacional, convocada pelas centrais sindicais, em junho, mostrava que o povo não estava envolvido com os protestos.
Em julho, quando o real completava dois anos, a inflação de maio a maio ficava em 19,28%. E o Dieese anunciava uma queda recorde nos preços, apurando a menor taxa anual em 26 anos. O IGP seguiu o mesmo rumo.
A sequência continuou ao longo dos últimos meses. Nem a liberação nos preços dos combustíveis, em 27 de julho, nem o aumento do déficit da balança de pagamentos contiveram a queda. A inflação em 12 meses, medida em agosto, já estava em um dígito: 9,74%, pelo IGP-M. Nos meses seguintes todas as previsões otimistas se confirmaram, e para melhor. Os números finais ficaram até muito abaixo dos 15% antecipados pelo presidente Fernando Henrique no começo do ano.

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