No começo de 1996, mesmo os mais otimistas estimavam que a inflação brasileira no ano chegaria aos 15%. Não era uma projeção tão boa quanto os números fazem supor. Para um país que havia enfrentado índices de 40% a 50% ao mês, só 15% ao ano era excelente. Mas, ainda assim, representaria uma corrosão considerável da moeda.
Ocorre que o resultado final foi muito melhor, abaixo dos 10%, conforme todos os indicadores já apurados e divulgados. Uma verdadeira surpresa, ainda mais quando se sabe que algumas das vitais mudanças que deveriam ser feitas na economia, entre as quais as reformas estruturais, não saíram do papel. Pior, além de uma tramitação lenta, pelos caminhos tortuosos do Congresso, as reformas estão sofrendo tantas emendas que, se ficarem assim, dificilmente vão atingir seus propósitos.
Por outro lado, também não houve um aumento considerável da oferta de produtos, notadamente de alimentos, que pudesse justificar a estabilidade dos preços. O déficit da balança comercial brasileira foi, igualmente, dos mais elevados e o déficit público atingiu números imensos. Mas apesar de todos estes fatores negativos, a inflação caiu.
Não há nada no cenário - exceto combustíveis, mas com poder de fogo limitado - que possa contrariar a tendência de 1996. Assim como parecia incrível ao Brasil sobreviver sem uma convulsão social aos anos em que a inflação galopava, também existe o sentimento, mesmo entre especialistas, de que a queda da inflação em 1996 é inacreditável. Naturalmente, isto deve ser creditado à engenharia com que foi montado o programa de estabilização, que surgiu bem antes do real, em fevereiro de 1994.
O projeto, bem concebido e gerenciado, apesar dos diversos escorregões nas alíquotas de importação, é digno de elogios. E é autoexplicativo: trata-se de uma política monetária de ferro, sustentada em reservas de quase 60 bilhões de dólares, por sua vez sustentadas em juros que não existem em lugar algum e por isso atraem capitais de todo o mundo. A questão, para o futuro, é saber se os juros podem ser tão altos por tanto tempo e o que vai acontecer quando eles não forem tão atraentes. Além disso, não se sabe até quando a atual política monetária pode aguentar os déficits da União, dos estados e dos municípios.
Mas a participação madura da população, a conscientização do consumidor, o gosto que o brasileiro foi sentindo de uma economia menos caótica, isto também ajuda, e muito. O aumento do consumo no primeiro fim de ano do real, que criou uma grande festa de inadimplência, acabou ensinando o povo que é melhor poupar do que gastar sem critério. As reformas que não se completaram - e que podem responder às indagações feitas acima - foram compensadas pela mudança na mentalidade da população, por um amadurecimento geral e por um acompanhamento eficiente das autoridades do Executivo.
A inflação pode continuar em baixa no ano que vai começar. Os obstáculos continuarão a ser grandes e, inquestionavelmente, sem as reformas estruturais que o país reclama, as dificuldades para manter a estabilidade serão imensas. A esperança, porém, é a de que, afinal, os políticos percebam que precisam fazer sua parte. O desafio maior continua a ser este. É possível manter a estabilidade, mesmo com novos déficits na balança comercial. Mas sem uma queda efetiva no déficit, sem o ajuste do setor público, em todos os níveis, haverá sérias dificuldades para derrubar a inflação e atingir aquele tão desejado estágio de uma economia de primeiro mundo.

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