Indonésia amplia limpeza étnica no Timor
Bernard Estrade
France Presse
De Jacarta
O exército indonésio e suas milícias continuavam ontem saqueando e expulsando sistematicamente a população em Dili, capital de Timor Leste, enquanto que os protestos da comunidade internacional não têm a menor consequência no terreno.
Ao contrário, nesta terça-feira se estreitou mais ainda o cerco ao redor da sede da Missão das Nações Unidas para Timor Leste (UNAMET) de Dili onde se refugiavam 2 mil timorenses e pouco mais de 200 membros da ONU e jornalistas.
As estradas de acesso, segundo um correspondente no local, foram bloqueadas na tarde de ontem, com caminhões e as linhas de telefone cortadas. A água e as provisões começam a faltar.
Em Jacarta, Xanana Gusmão, o carismático líder separatista, foi libertado ontem depois de 20 anos de condenação por complô contra o estado e posse de armas.
Em sua primeira declaração apelou à comunidade internacional para deter a violência e as matanças e declarou: Os soldados indonésios matam, roubam e destroem os bens dos timorenses do leste.
Estas primeiras horas de liberdade, protegido na embaixada da Grã-Bretanha, foram amargas para o líder de guerrilha que enquanto esteve preso alcançou a dimensão de homem de estado.
Emocionado, Xanana, considerado o futuro presidente de um Timor Leste independente, advertiu que herdará um país esvaziado pelo genocídio. Já não há uma população. O Exército está matando a população e está destruindo e saqueando o país.
O anúncio de que a população de Timor Leste se pronunciou maciçamente pela independência (78,6% dos votos) desencadeou um terrível caos e o líder não poderá de imediato reencontrar seu povo.
Monsenhor Carlos Felipe Belo, bispo de Dili e prêmio Nobel da paz em 1996, cuja residência foi incendiada na segunda-feira por milicianos e soldados, foi levado de helicóptero a Bacau, 100 km a leste de Dili, e obrigado finalmente a abandonar a ex-colônia portuguesa.
Belo chegou nesta terça-feira a Darwin, norte da Austrália, a 500 km de Timor Leste, junto a outros evacuados, depois de viajar com nome falso por razões de segurança.
Os escritórios das Nações Unidas em Timor Leste foram atacados ontem em Bacau, obrigando a ONU a evacuar seu pessoal, informou um porta-voz da organização em Darwin.
Ontem não restavam em Timor Leste mais que 140 funcionários da UNAMET no quartel-general de Dili e seu número continua caindo.
Os jornalistas que chegaram ao aeroporto em caminhões da polícia descreveram Dili como uma cidade sem lei, cujas casas são sistematicamente saqueadas pelos soldados e milícias, que carregam os objetos pilhados em veículos militares.
A marinha indonésia e o exército de terra informaram que fornecerão barcos e caminhões para evacuar os refugiados.
Mas Ian Martin, chefe da UNAMET, ainda em Dili, informa que não se trata de refugiados, e que são transferidos à força para destinos desconhecidos.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha mencionou que houve cerca de 60 mil deportados em menos de 48 horas, ou seja, a metade da população de Dili.
Segundo fontes das Nações Unidas, as autoridades indonésias programam retirar de 200 mil a 250 mil pessoas, um êxodo que recorda os movimentos de população na Bósnia e o esvaziamento de Phnom Penh depois da chegada dos Kmers Vermelhos em 1975.O mundo assiste, impotente, o exército indonésio deportar população do Timor Leste enquanto milícias saqueiam a capital, Dili
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