Indiferença marca eleições argentinas
Vladimir Goitia
Associated Press
De Buenos Aires
O calor de quase 33 graus dos ensolarados dias da primavera argentina não conseguiu contagiar os 24,59 milhões de argentinos aptos a votar nas eleições presidenciais marcadas para este domingo. Fernando De La Rúa, da oposicionista Aliança UCR-Frepaso, lidera as pesquisas contra Eduardo Duhalde, do oficialista Partido Justicialista (peronista). O independente Domingo Cavallo tem 10% das intenções.
Os argentinos, acostumados a se reunir nas esquinas das amplas avenidas de Buenos Aires, afirmam que o clima eleitoral está apático em vista da maturidade democrática obtida nos últimos dez anos e da indiferença em relação às propostas dos candidatos.
De acordo com dados oficiais, em apenas cinco regiões eleitorais (capital federal e as províncias de Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba e Mendoza) estão agrupados 70% dos eleitores (16,53 milhões). Apenas na Província (Estado) de Buenos Aires, serão 8,99 milhões de argentinos aptos a comparecer às urnas.
Nas eleições presidenciais de 1995, 5 milhões de argentinos não votaram. Alguns analistas acreditam que esse número de indiferentes pode repetir-se e pelo menos 1 milhão devem votar em branco. Como o voto é obrigatório, os argentinos já pensam em entrar para o grupo dos 501. Pelo código eleitoral, se um cidadão está a mais de 500 quilômetros do seu local de votação, fica isento dessa obrigação. Por isso, o movimento ou grupo de pessoas que planejam não votar vem crescendo. Estima-se que, em sua maioria sejam jovens entre 18 e 21 anos.
A nova geração da indiferença soma quase 1 milhão de jovens, que mostram pouco ou quase nenhum interesse pela política e a consideram com pouco poder para modificar a realidade. A maioria nasceu com o final da ditadura, cresceu com a democracia e, quando Menem assumiu o poder, em 1989, estava com 8 ou 9 anos de idade. Mas a perspectiva de ir pela primeira vez às urnas para escolher um novo presidente tem mostrado mais indiferença do que entusiasmo ou curiosidade.
Há menos de quatro décadas, jovens dessa idade estavam até dispostos a morrer para defender ou participar da democracia. Ser jovem era sinônimo de rebeldia e de participação. Hoje, esse idealismo parece estar morto. Uma recente pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP) em Buenos Aires e na Grande Buenos Aires mostrou que 59% dos jovens não se interessam pela política. Para 47,9%, é sinônimo de corrupção e de negociações por baixo do pano. E mais, 86,9% jamais pensaram em incorporar-se a um partido político.
A maior preocupação é o desemprego e a insegurança. Equipes de Investigação Social (Equis) constataram que 40% dos jovens que estão aptos a votar se encontram abaixo da linha da pobreza. Isso significa que não têm sequer 164 pesos (US$ 164), para os homens, ou 114 pesos (US$ 114), paras mulheres, para comprar uma cesta básica de alimentos, somada a outros gastos. Muitos desses jovens sofrem o flagelo do desemprego.
A estudo mostra ainda que 32% dos jovens que vão votar pela primeira vez estão atrás de um emprego. Pior, 44% desses jovens vivem em lugares onde não existe saneamento básico. A maioria acredita que os candidatos não estão nem aí com a Argentina e buscam apenas sair do anonimato. Indagados sobre o que fariam eles se fossem eleitos presidente, a maioria diz, sem duvidar, que acabariam com as favelas e, depois, ofereceriam trabalho para todos os argentinos.
O cientista político Rosendo Fraga diz que os jovens representam hoje o setor mais cético do eleitorado. O ceticismo dessa parcela do eleitorado, de acordo com ele, tem as suas razões. O mercado de trabalho não abre as suas portas e, se o faz, os recebe em condições precárias e abusivas. Um quinto dos que estão com trabalho, por exemplo, não recebe pelo que faz ou é retribuído apenas de forma esporádica.
As eleições argentinas têm outras curiosidades. O primeiro colocado para presidente, por exemplo, acabará sendo eleito com 45% dos votos já no primeiro turno, independentemente da diferença em relação ao segundo colocado. Caso o mais votado consiga entre 40% e 45% e mantenha uma diferença de 10 pontos percentuais para o segundo colocado, também vence no primeiro turno das eleições.





