O enviado da Rússia para os Bálcãs, Viktor Chernomyrdin, declarou-se ontem ‘‘muito satisfeito’’ depois de nove horas de conversações com Slobodan Milosevic em Belgrado, mas não houve sinais de que o presidente iugoslavo estava desejando mudar de curso um dia depois de seu indiciamento como suposto criminoso de guerra.
Um comunicado iugoslavo divulgado após o encontro reiterou que o governo aceita os princípios gerais acordados este mês pelas nações do Grupo dos Oito (G-8). Mas sem mencionar a questão da presença de tropas estrangeiras em Kosovo, afirma-se no comunicado que a ‘‘soberania e integridade territorial’’ da Iugoslávia permanecem invioláveis - sugerindo sua continuada oposição a qualquer força estrangeira em Kosovo que seja bem armada e tenha um forte componente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Mesmo assim, Chernomyrdin disse acreditar ter feito progresso suficiente e estava quase certo de que seria capaz de retornar a Belgrado com o enviado da União Européia, o presidente finlandês Martti Ahtisaari.
Mais cedo ontem, Chernomyrdin lamentou que o indiciamento do líder iugoslavo tenha feito com que Ahtisaari não o acompanhasse a Belgrado. Ele afirmou a repórteres que espera que suas conversações com Ahtisaari e o enviado norte-americano Strobe Talbott sejam retomadas depois de seu encontro com Milosevic.
Ao invés de acompanhar Chernomyrdin, Ahtisaari vôou na quinta-feira para Bonn para conversar com líderes alemães. Ele não explicou sua decisão de não ir a Belgrado, mas disse esperar ir na próxima semana.
Antes de retornar a Moscou, Chernomyrdin disse ter ficado ‘‘muito satisfeito com sua visita a Belgrado’’, informou a agência de notícias russa Itar-Tass.
O comunicado iugoslavo emitido no fim das conversações entre Chernomyrdin e Milosevic reitera a insistência do líder iugoslavo que o Conselho de Segurança da ONU trate da crise, acrescentando que deve-se dar a ele o poder de lidar ‘‘com todo o problema’’.
A expressão ‘‘todo o problema’’ indica que - com a campanha aérea da Otan em seu terceiro mês - Milosevic pode estar mais disposto do que antes a aceitar o que o Conselho de Segurança decidir para Kosovo como forma de pôr fim à crise.
A Rússia e a China têm poder de veto no conselho e provavelmente não aceitarão nada que seja veementemente rechaçado por Belgrado.
Num sinal de que Belgrado estaria disposto a negociar dois disputados pontos-chaves, Chernomyrdin disse que especialistas militares da Rússia viajando com ele discutiram com seus colegas iugoslavos condições para uma retirada do exército e tropas da polícia iugoslava de Kosovo e a entrada de um contingente internacional sob a égide da ONU na região.
A televisão estatal mostrou Milosevic reunido com Chernomyrdin em sua residência oficial no distrito de Dedinje acompanhado pelo ministro do Exterior Zivadin Jovanovic e vários generais.
Chernomyrdin disse que seu quarto encontro com o líder iugoslavo desde o início da campanha de ataques aéreos da Otan em 24 de março visava ao fim da violência em Kosovo e os bombardeios da Otan na Iugoslávia.
‘‘A coisa mais importante é ter a suspensão dos bombardeios para que as negociações políticas possam continuar’’, teria dito ele, segundo a agência estatal de notícias Tanjug. Mas altos oficiais russos indicaram que Chernomyrdin não estava levando novas alternativas de seus dois dias de conversações em Moscou com Talbott, o subsecretário de Estado dos EUA, e Ahtisaari.
Chernomyrdin disse que o indiciamento do líder iugoslavo por acusações de crimes de guerra não iria afetar sua missão. O Tribunal de Crimes de Guerra da ONU em Haia, Holanda, indiciou Milosevic e quatro outros altos oficiais na quinta-feira. Eles foram acusados de crimes contra a humanidade por planejarem e executarem crimes de guerra contra albaneses étnicos em Kosovo. Ontem, a Suíça emitiu ordem de prisão para os cinco e anunciou que estava examinando uma ordem da Corte de Haia para congelar fundo de Milosevic e seus assessores.

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