Índia leva o Leão de Ouro no 58º Festival de Veneza
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
O filme ''Monsoon Wedding'', da diretora Mira Nair, foi eleito o melhor da 58 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica de Veneza e levou o Leão de Ouro, prêmio máximo do festival. O austríaco ''Hundstage'', de Ulrich Seidl, ficou com o Prêmio Especial do Júri. A melhor direção, segundo o júri, foi a do iraniano Babak Payami, por ''Raye Makhfi'' (O Voto é Secreto). O melhor roteiro foi o de ''Y Tu Mamá También'', escrito por Carlos Cuarón.
Na decisão mais contestada, a Coppa Volpi para melhor ator e atriz, entregue por Jeanne Moreau, ficou com Luigi Lo Cascio e Sandra Ceccarelli, ambos do italiano ''Luce dei Miei Occhi''. A dupla de novatos Gael Garcia Bernal e Diego Luna, de ''Y Tu Mamá También'', dividiu o Prêmio Marcello Mastroianni destinado a atores estreantes (outra escorregadela dos jurados: os dois já têm vários trabalhos em cinema; não são ainda veteranos, mas muito menos principiantes). As premiações foram decididas pelos diretores Nani Moretti (presidente), Jerzy Skolimowski e Taylor Hackford, pelas atrizes Jeanne Balibar e Cecilia Roth, pelo escritor Amitav Ghosh e pela produtora Vibeke Windelov.
O anúncio dos vencedores foi sábado à noite na Sala Grande do Palazzo del Festival, na ilha do Lido, durante cerimônia transmitida ao vivo pela televisão para toda a Europa. Na platéia, o presidente da Italia, Carlos Azzeglio Ciampi. Este ano o diretor da mostra, Alberto Barbera, decidiu transformar também em competitiva a seção paralela ''Cinema del Presente'', com outros 20 longas metragens e até mesmo com júri exclusivo. E o prêmio criado especialmente, o Leone dell'Anno, foi para belo filme francês ''L'Emploi du Temps'', de Laurent Cantet.
O Prêmio Especial do Júri acabou dividido entre ''Haixian'', de Zhu Wen, e ''Le Souffle'', de Damien Odoul. Um terceiro júri, também independente, conferiu o Prêmio Ópera Prima Luigi de Laurentiis / Leone del Futuro à produção eslovena ''Kruh in Mleko''. O diretor do filme, o jovem e irreverente Jan Cvitkovic, acabou fazendo a diferença na burocrática pasmaceira da premiação. De calça estampada e camiseta com a foice e o martelo no peito, ele dedicou o prêmio a Mike Tyson e à seleção de futebol da Eslovênia. O melhor curta-metragem foi ''Freunde'', do alemão Jan Kruger, que ficou com o Leone d'Argento.
O Brasil concorria na mostra principal, ''Venezia 58'', com o longa ''Abril Despedaçado'', de Walter Salles. O filme, em geral mal recebido pela crítica presente ao festival (foi até injustamente vaiado na sessão para a imprensa), teve boa recepção somente na projeção oficial exclusiva para convidados e público curiosamente a mesma assistida pelo júri. Para não dizer que ficamos sem prêmio nenhum, o filme de Salles acabou ganhando o Leoncino d'Oro (Leãozinho de Ouro). O prêmio, apesar de colateral, é oficializado pela direção do festival.
Um festival da mais transparente mediocridade, no sentido etimológico clássico, este 58º de Veneza. Nenhum grande filme. Decepção dos orientais, europeus sem entusiasmo. Não é de estranhar que o júri tenha optado por dar quatro prêmios principais a dramas temperados com humor. Índia, Áustria, Irã e México, entre vários outros, mais ou menos cortejam o riso para colocar mais rapidamente ao alcance do espectador um punhado de problemas que afligem o homem contemporâneo. Mas fazem isto sem ousadia o único mais atrevido é o austríaco Seidl e por consequência sem deixar marcas de um grande cinema. É pena.


