Jair Rattner
Agência Estado
De Lisboa
Com a certeza da vitória no plebiscito, a resistência timorense acredita que só dentro de alguns anos o país vai se separar da Indonésia. ‘‘Depois da contagem dos votos, deverá ocorrer um período mínimo de 2 anos e máximo de 4 anos para a independência. Esse período é fundamental para criar condições de estabilidade social e política em Timor’’, afirmou ontem em Lisboa José Luís Guterres, do Conselho Nacional da Resistência Timorense.
Segundo Guterres, formado em marketing político e que há 24 anos está na direção do movimento contra a dominação indonésia, uma declaração imediata de independência criaria uma situação ingovernável em Timor. ‘‘Tem ocorrido problemas entre os pró-independência e os colaboradores e se não houver tempo suficiente para sarar as feridas e criar novos laços com o Estado indonésio podemos ter uma situação difícil.’’
Para Guterres, a maior resistência que a independência de Timor pode enfrentar vem dos militares. ‘‘Na Indonésia ainda há muitos generais que consideram que Timor é o ponto mais alto das suas carreiras. Foi por ordem dos militares que houve tentativa de desestabilizar o plebiscito sobre a independência.’’
Ele atribui a relativa calma em que ocorreu a votação – apenas foram registrados seis incidentes – às mudanças no comando das forças armadas do país ocupante. ‘‘Nos últimos dias, o general indonésio que orientava as milícias, Zak Anuar, foi destituído. Também os comandantes na zona de fronteira entre Timor e a Indonésia foram demitidos’’. Guterres considera que um fator importante para que a votação não tivesse incidentes foi a pressão norte-americana sobre Jacarta.
Apesar de o resultado do referendo só sair dentro de uma semana, a decisão sobre a aceitação da independência deverá ser tomada pelo próximo governo de Jacarta, que apenas vai tomar posse no fim do ano.
A candidata mais votada para o cargo de primeiro-ministro, Megawati Sukarnoputri posicionou-se contra a independência. ‘‘Todos os partidos indonésios afirmaram que iam respeitar a decisão de Timor. Megawati fez uma declaração dizendo que era a favor da integração na Indonésia, mas aceitava a decisão dos timorenses. Acredito que ela vai cumprir’’, diz Guterres.
O líder da resistência não considera que a independência de Timor vai ser responsável pela desagregação da Indonésia, país que tem vários movimentos separatistas: ‘‘Antes da invasão de Timor, já existiam movimentos em Aceh, Iran Jaia e nas Molucas. O que gerou problemas foi a centralização e o desrespeito pelos direitos humanos praticado pelo governo de Suharto’’.

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