A incerteza sobre o futuro político paira sobre o Paraguai desde o revés eleitoral do Partido Colorado nas vice-presidenciais de agosto, que enfraqueceu a já frágil estrutra do governo de Luis González Macchi, apesar do recuo da figura do ex-general Lino Oviedo, detido no Brasil.
González Macchi – ex-presidente do Senado que chegou ao poder depois do assassinato do vice-presidente Luis María Argaña e a renúncia do chefe de estado, Raúl Cubas, em março de 1999 – pareceu com capacidade de se garantir depois de sufocar a intentona comunista de maio desse ano, atribuida a Oviedo.
E a prisão do caudilho populista no Brasil, no mês seguinte – a pedido das autoridades paraguaias que o investigam pelo assassinato de Argaña – desembaraçou o primeiro mandatário de seu inimigo confesso.
Mas alguns dissidentes do oficialismo, assim como parte da oposição, apostam agora por uma substituição, a curto prazo, do mandatário, pelo vice-presidente Julio César ‘‘Yoyito’’ Franco, do Partido Liberal.
Franco foi o vencedor das eleições vice-presidenciais de 13 de agosto, restando assim como a única figura do Executivo que conta com a legitimidade das urnas. Tratou-se, também, da primeira derrota infligida ao Partido Colorado desde sua chegada ao poder em 1947.
Oviedo, desde a prisão, tinha chamado seus partidários da União Nacional de Colorados Éticos (Unace) a votar pela oposição, e alguns próximos de Franco admitem que esse apoio foi chave na vitória do líder opositor.
Segundo diversos diplomatas latino-americanos consultados pela France Presse, González Macchi não conseguiu constituir uma base de poder, e não tem força para levar adiante a sempre adiada reforma do Estado e as privatizações.
O governo promulgou uma lei de ‘‘via rápida’’ para vender a telefônica estatal, a companhia de águas e as estradas de ferro. A cobiçada telefonia nacional, primeira na lista de privatizações, será a prova de fogo de González Macchi, que deverá enfrentar as mobilizações do influente funcionalismo público.
Os especialistas estimam que 60% da economia nacional está nos negócios do Estado e os 200.000 funcionários representam com suas famílias quase a metade do eleitorado nacional, clientela política que estava há pouco tempo prisioneira da estrutura do Partido Colorado.
Depois da derrota eleitoral, o movimento de González Macchi, Reconciliação Colorada, se fragmentou. E o grupo no poder voltou a abrir quase em surdina a porta para o oviedismo, para evitar um desmoronamento absoluto dos Colorados. Bader Rachid, presidente do Partido, pertencente ao setor argañista, afirmou que ‘‘a unidade dos colorados é uma prioridade’’ e não esconde suas reuniões com a direção da Unace.
Diógenes Martínez, um senador colorado dissidente, afirmou em declarações à France Presse que González Macchi somente conseguirá se manter no cargo se o Congresso lhe aprovar um projeto de lei de bônus de 85.000.000 de dólares e se conseguir um pacto com os oviedistas.
Mas a Unace já põe preço na negociação, e exige que sejam arquivados os processos criminais contra seu líder, para que este possa voltar ao Paraguai. Os próximos a González Macchi ‘‘terão que optar pelo partido e seus interesses, ou seus interesses pessoais. A unidade implica que Oviedo esteja no Paraguai e livre’’, afirmou Carlos Galeano Perrone, porta-voz da Unace.
Os principais referentes liberais, por sua vez, não escondem seu sonho de ser governo de 2001 a 2003 (data prevista para as próximas eleições), já que sabem que somente poderão ter credibilidade nas urnas se conseguirem demonstrar que sabem administrar o país, depois de décadas de oposição.
Os amigos de Franco multiplicam as declarações hostis contra González Macchi e lhe recomendam que retome sua bancada no Senado. O vice-presidente, no entanto, opta por uma posição mais conservadora e diz que prefere observar se o mandatário tem vontade política para levar as reformas adiante.

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