Rawalpindi - ''Todo o chão tremeu''. Em estado de choque, Mohammed Haider não conseguiu conter a emoção ao recordar as cenas vistas depois do atentado suicida que matou ontem a ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto, 54 anos, e pelo menos outras 22 pessoas.
''A potência da explosão chegou a rasgar as roupas das pessoas. Vi quando caíam cobertas de sangue. Tentei ajudá-los da melhor forma que pude, colocando os feridos nas ambulâncias. Foi uma cena realmente horrível'', relatou a testemunha no hospital de Rawalpindi, na periferia de Islamabad.
De acordo com testemunhas, o camicase teria atirado em Bhutto antes de acionar a bomba que transportava. Investigadores afirmaram que a ex-primeira-ministra foi baleada no pescoço, mas outros dizem que ela foi atingida por fragmentos da bomba.
A deflagração do artefato provocou cenas de horror: em um movimento de pânico indescritível, pessoas apavoradas corriam para todos os lados pisando em pedaços de corpos e poças de sangue.
''Houve uma enorme explosão e vi membros humanos sendo projetados no ar'', relatou Mirza Fahin, professora numa escola local. ''Quando a poeira baixou, vi corpos mutilados sobre poças de sangue. Nunca vi nada tão horrível em toda a minha vida'', comentou.
A notícia da morte foi seguida de forte comoção. Em frente ao hospital, apoiadores de Bhutto eram vistos quebrando os vidros das janelas e expressando raiva. Outros apenas choravam. Alguns dirigiram xingamentos ao ditador do Paquistão, Pervez Musharraf, principal adversário da ex-premiê.
Logo após a confirmação do assassinato da ex-premiê, Musharraf convocou um encontro de emergência com seus ministros para ''discutir todos os aspectos da tragédia nacional''. Ele também pediu para a população manter a calma.
Adversária política de Musharraf, Benazir tentava costurar com ele um acordo para que, após as eleições de 8 de janeiro, ocupasse o cargo de premiê sob sua presidência. A perspectiva desse acordo, que havia desandado recentemente, fez com que o governo a anistiasse e possibilitou sua volta ao Paquistão em outubro último - condenada por corrupção, ela estava exilada no Reino Unido. Logo no dia de sua volta, foi alvo de um grande atentado, em Karachi, o qual matou mais de 130 pessoas.
Repercussão - O presidente Lula da Silva ficou ''chocado'' com a morte de Benazir Bhutto. Segundo o assessor de Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, ele está preocupado com a situação no Paquistão.
Os EUA condenaram o assassinato. ''(O ataque) demonstra que ainda há no Paquistão aqueles que querem prejudicar os esforços de reconciliação'', disse o porta-voz da Casa Branca, Tom Casey.
O Vaticano afirmou que o assassinato foi ''terrível e trágico''. ''Esse ataque mostra como é extramemente difícil pacificar uma nação tão abalada pela violência'', afirmou o porta-voz padre Frederico Lombardi, acrescentando que essa morte ''faz com que a paz fique mais distante''.
Biografia - A ex-premiê Benazir Bhutto foi a primeira mulher a comandar um Estado Islâmico. Ela foi chefe de governo do Paquistão durante dois mandatos (1988-90 e 1993-96), mas não completou nenhum.
A ''líder dos pobres'', como ela mesmo se descreveu, optou em 1999 por abandonar o país para um exílio voluntário, que só terminou em outubro deste ano.
Sua morte acontece a duas semanas das eleições, da qual deveria participar. A expectativa é que o governo anuncie um adiamento no pleito.

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