O Instituto Nacional do Câncer (Inca) defende o aumento do preço do cigarro como estratégia para diminuir seu consumo e as doenças decorrentes do fumo. A tese está no livro ‘‘Cigarro Brasileiro – Análise e Propostas para a Redução do consumo’’, encomendado à Fundação Getúlio Vargas (FGV). O trabalho foi lançado ontem, no Rio, na abertura da exposição ‘‘Ver através da Fumaça’’, com cartazes e vídeos antitabagistas nacionais e estrangeiros. Por toda a cidade, pessoas fantasiadas de cowboys distribuíram panfletos contra o cigarro, numa alusão a uma marca que usa o personagem como apelo.
‘‘O consumo per capita no Brasil diminuiu de 1.690 unidades, em 1996, para 1.450, em 1999’’, disse a coordenadora de Campanhas de Prevenção do Inca, a médica Vera Luíza Costa e Silva. ‘‘Apesar de ter um dos maiores impostos sobre o produto do mundo, 74,7%, o Brasil é um dos países onde o cigarro custa mais barato porque somos grandes produtores de fumo e temos mão-de-obra barata’’, continuou. ‘‘Se o seu preço aumentar em 15%, haverá, a curto prazo, um aumento de 12% a 13,5% na arrecadação e 1,5 a 3% no consumo’’.
Segundo Luíza, esse resultado é menor a longo prazo, porque as pessoas tendem a se acostumar com o preço mais alto, mas vai influir mais no público-alvo das campanhas antitabagistas, os jovens e os fumantes de baixa renda, os mais afetados pelo preço do cigarro e com menos recursos para tratar as doenças decorrentes do hábito de fumar. ‘‘Só este ano, o governo federal vai gastar R$ 4,5 milhões na campanha contra o fumo e nosso alvo principal é o adolescente, mais sensível à publicidade’’, explicou ela.
A coordenadora contou também que foi criada uma comissão presidida pelo ministro José Serra (da Saúde) e com representantes das pastas da Agricultura, Educação e Reforma-Agrária. ‘‘Queremos estudar a possibilidade de reduzir a produção do tabaco no País, sem prejuízo econômico’’, comentou Luiza. ‘‘Atualmente, a inústria do fumo tem 20 mil empregos diretos e seu plantio envolve 720 mil trabalhadores diretos e 1,45 milhão indiretos’’.
O norte-americano Charles McLaren, que está no Brasil em campanha antitabagista, também foi ao MAM falar de seu irmão, o ator Wayne McLaren, ‘‘garoto-propaganda’’ dos anúncios do cigarro Marlboro. Wayne morreu de câncer no pulmão depois de fumar durante 40 anos, sete dos quais protagonista dos anúncios. ‘‘Até vê-lo definhar e morrer, não me incomodava se fumassem perto de mim’’, disse Charles. ‘‘Se isso acontecer hoje, um dos dois vai ter que sair’’.
O presidente do Inca, Jacob Kligerman, lembrou que o câncer no pulmão está aumentando entre as mulheres por causa da mudança dos hábitos na década de 60. ‘‘Não quero ser machista e negar suas conquistas, mas foi nessa época que aumentou o número de fumantes femininas’’, adiantou. ‘‘E com o câncer de pulmão tem um prazo de latência de 30 anos, sentimos agora as consequências’’.

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