Imprensa tem tradição de vender remédios
Imprensa tem tradição
de vender remédios
Gilles Lapouge
Agência Estado
No início de maio, o jornal The New York Times anunciou que o Dr. Judah Folkman havia aberto uma pista inédita para a cura do câncer - sufocar as células cancerosas, tirar delas seu sustento, injetando dois fragmentos de proteína, a angiostatina e a endostatina.
Daqui a um ano, disse o jornal de 3 de maio, um primeiro paciente receberá uma injeção de duas novas moléculas que podem erradicar qualquer tipo de câncer...
Supreendente! Mas trata-se do New York Times. O artigo é assinado por um nome respeitado entre os jornalistas comentaristas de medicina, Gina Kolata... Além disso, James Watson, Prêmio Nobel de Medicina, está admirado... É a loucura.
Judah Folkman é elevado, repentinamente e a uma velocidade supersônica, às alturas de um Charles Darwin ou de um Isaac Newton. E, no dia 4 de maio, por ocasião da abertura das Bolsas, explodem as ações da Entremed, que produz as moléculas.
O contágio infecciona o mundo. Mas, muito rapidamente, vem o recuo. Aqui e ali, exige-se prudência, colocam-se freios. O Prêmio Nobel Watson bate um pouco em retirada. Na França, a maior parte dos jornalistas de medicina expressa suas dúvidas. Realizam-se agitadas reuniões nas redações, mas a direção dos jornais força a barra: não se pode ficar mudo enquanto o mundo se inflama. E Le Monde, Le Figaro, Le Parisien, as grandes emissoras de rádio e de TV se sentem condenadas a repercutir a informação. Transmitem a notícia com alguns matizes, algumas restrições, mas, numa questão tão sensível, as prudências, as atenuações são ineficazes. A esperança é um turbilhão avassalador. E agora que a esperança, com um gênio, saiu da garrafa, é difícil fazê-la reentrar.
Não sei (pois ninguém ou quase ninguém o sabe, visto que até agora o sucesso está limitado a experimentos em ratos) se um dia as duas moléculas-milagre serão miraculosas. Minha idéia é diferente: mostrar como a informação científica, quando afeta o corpo humano, é perigosa, ardilosa, difícil de se dominar. É impossível não dizer nada a respeito de uma eventual descoberta maravilhosa. Por outro lado, o simples fato de falar sobre isso, muito embora acrescentando restrições e dúvidas, faz desencadear esperanças às vezes injustificadas e portanto prejudiciais.
Os perigos são muito mais agudos porque as ciências gozam de um pré-julgamento favorável: um político mente; um comerciante é meio malandro, um jornalista é fantasista; uma top model não é mais do que maquiagem, disfarce e companhia, mas um cientista é um cara assombroso. Não mente nunca.
Vejamos: No início do século, em 1909, o cientista alemão Emil Abderhalden publicou um estudo sobre as proteínas que ele batizou de enzimas de proteção. Estas enzimas têm todo tipo de virtudes, inclusive para fazer decrescer um monte de coisas, como a gordura, os sarcomas, os arinomas, a sífilis, a esquizofrenia... Em 1914, os trabalhos de Emil Abderhalden já haviam suscitado 400 artigos nas revistas mais sérias do mundo.
Não vamos entrar em detalhes técnicos. A lição é a seguinte: em 1950, por ocasião da morte do cientista alemão, as enzimas de proteção estavam em plena decadência. Em 1960, ninguém mais fala delas. Desapareceram. (Um artigo na revista britância Nature relata a aventura destas enzimas, ao mesmo tempo miraculosas e irreais).
Não se trata de lançar dúvidas e sombras sobre uma pesquisa médica conquistadora e frequentemente genial. Muito menos sobre os cientistas. Queremos simplesmente lembrar que, apesar dos parapeitos que as revistas científicas colocam em torno de seus artigos, sempre é possivel que neles se infiltre um intruso, uma molécula imaginária, um medicamento caseiro, graças à astúcia de alguns.
No caso do medicamento contra o câncer descoberto pelo dr. Judah Folkman, não se trata absolutametne de trapaça, de fraude, como no caso das enzimas de proteção de Abderhalden. Trata-se apenas de um anúncio meio estrondoso demais, repercutido, à potência máxima, pela imprensa mundial. No momento, os ânimos voltam à calma e o trabalho do dr. Folkman poderá continuar, com uma serenidade e uma lentidão que jamais deveriam perder.





