Desde que surgiram os primeiros rumores sobre um novo escândalo sexual que poderia envolver a Casa Branca, a viagem do Papa a Cuba cedeu o primeiro lugar no noticiário nos EUA, e o primeiro plano às especulações de que a presidência do presidente Bill Clinton está em perigo.
O simples fato de as centrais das grandes cadeias de televisão em Nova York - ABC, CBS e NBC - terem chamado seus astros, Peter Jennings, Dan Rather e Tom Brokaw, respectivamente, serviu para projetar ao primeiro plano o que a NBC chamou, ontem, de ‘‘a notícia do escândalo de Clinton.’ Para muitos cubanos, esse êxodo das figuras chaves do influente telejornalismo americano teve o efeito de uma bofetada.
‘‘Essa era uma grande o oportunidade para que o povo dos Estados Unidos conhecesse melhor a nossa situação’’, comentou a antropóloga Natália Bolívar. ‘‘Parece-nos pouco sério - para não dizer ridículo - que uma questão de saias (questão de mulheres) possa causar tanto alvoroço na primeira potência mundial. Não sei quando o povo cubano terá outra oportunidade de fazer com que o grande público americano conheça a sua realidade.’
Uma redução significativa da cobertura da viagem do papa, obscurecida pelo sensacionalismo com que está sendo focalizada a nova saga de Clinton pela TV dos Estados Unidos, inevitavelmente terá consequências negativas para toda a América Latina, segundo um diplomata sul-americano recém-chegado a esta capital.
‘‘Conseguir que os Estados Unidos fiquem mais bem informados sobre a realidade de Cuba é importante para todos os nossos governos’’, disse o diplomata. ‘‘Não é possível que, cada vez que surge a possibilidade de conquistar um voto a favor da reintegração de Cuba à Organização dos Estados Americanos (OEA) estejamos todos contra um, como acontece nas votações realizadas nas Nações Unidas.’
Poucos latino-americanos conseguem entender a magnitude da ignorância que existe a respeito de Cuba entre o público americano, depois de quase 40 anos de dura polêmica e de ausência de relações normais entre Washington e Havana.
‘‘Não se trata de estar a favor do regime castrista, ou contra ele’’, prosseguiu o diplomata. ‘‘O importante é que eles saibam que aqui existe um povo irmão do Caribe, que está sofrendo as consequências de um bloqueio que, francamente, viola todos os conceitos humanos e, como se isso fosse pouco, alguns princípios fundamentais do sistema interamericano. Mas se não houver nenhuma pressão popular para que isso termine, a situação persistirá indefinidamente.’
Ontem, por exemplo, tanto o Sumo Pontífice como a grande delegação de membros da alta hierarquia da Igreja que o acompanham, ficaram encantados com a acolhida entusiástica que o papa recebeu na capital provincial de Camaguey, no centro da ilha.
Embora Camaguey tenha a fama de ter sido, sempre, a província mais conservadora de Cuba, milhares de pessoas que se reuniram na Praça Ignacio Agramonte, onde o papa celebrou sua segunda missa, cantaram estribilhos em ritmo de rumba. O papa, sorridente, acompanhou o ritmo com palmas suaves e abriu os braços para a multidão.
Além dos cerca de 3.000 jornalistas que vieram de todas as partes do mundo para cobrir o evento que as rádios da Espanha e da França descreveram como ‘‘o último evento histórico do século’’, também vieram mais de 150 cardeais e bispos, assim como peregrinos e delegações políticas de países que vão do Canadá à Austrália, assim como observadores políticos dos Estados Unidos, a começar pelo congressista democrata Charles Rangel, por Nova York, critico da política do Departamento de Estado.
Ademais, Washington enviou um grande número de funcionários peritos em assuntos cubanos, que fizeram correr entre os jornalistas a informação de que ‘‘não se nota nenhuma mudança’’ na política dos Estados Unidos em relação ao regime de Fidel Castro, e, segundo um deles, muito menos agora, quando o novo problema pessoal criado pelo processo movido por Paula Jones e pelas declarações feitas por Monica Lewinski, ex-estagiária da jovem da Casa Branca, enfraqueceu sua posição de negociações na área de política externa.
Por outro lado, de nada adianta, para os cubanos que, paralelamente à onda de informações sobre a suposta existência de fitas gravadas contendo a acusação, feita por uma jovem funcionária da Casa Branca, de que Clinton lhe pediu que se mentivesse calada, contrariando as ordens judiciais, tenha provocado um veemente debate na própria imprensa, a respeito de como as notícias estão sendo encaradas.
‘‘Sempre existe a possibilidade de que nenhuma das alegações apresentadas por escrito seja verdadeira’’, declarou o sociólogo Larry Sabato, da Universidade de Virgínia, à NBC. (Não há motivo para se fazer nenhum julgamento, por enquanto. A imprensa deveria encarar essa notícia com outros critérios, como, por exemplo, levando em conta que Clinton conta com 60% do apoio popular, no momento).(AE)

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