esde o atentado terrorista que levou ao chão as torres gêmeas do World Trade Center (WTC), na terça-feira passada, a prefeitura de Nova York liberou a prática de ''racial profiling'' (perfil racial), que permite que policiais parem e interroguem suspeitos baseados apenas em seu aspecto físico.

A ''Folha de S.Paulo'' apurou com um oficial da força que a ordem informal e não-escrita foi dada no próprio dia do ataque. Não há números oficiais, mas desde então, perto de uma centena de imigrantes ou descendentes de muçulmanos foram parados na cidade e pelo menos duas dezenas, presas para interrogatório, todas posteriormente libertadas. Seu crime até agora foi apenas a aparência.

Relatos dão conta de que a prática foi especialmente utilizada nos aeroportos. Passageiros que esperavam seus vôos no JFK disseram que ''pessoas de pele mais escura e sotaque árabe'' eram tiradas das filas e revistadas, assim como ''homens de turbante ou barba muito comprida''.

Segundo o prefeito Rudolph Giuliani, ''não há discriminação na polícia de Nova York''. Se souber de algum caso, afirmou, punirá os responsáveis. A acusação não é novidade em sua administração: era a principal crítica que ele sofria antes do atentado. Mas as vítimas eram negros e latinos.

O presidente George W. Bush tem tentado desvincular a comunidade árabe-americana do ataque terrorista. Em visita à mesquita do Centro Islâmico de Washington na segunda-feira o presidente disse que ''a face do terror não é a verdadeira face do Islã''.

Mas o fato é que parte da população já trata a comunidade islâmica de outra maneira ou parte para o ataque direto. Ontem, um homem jogou seu carro contra uma mesquita em Cleveland, Estado de Ohio. Eric Richley, 29, está agora preso num hospital. No fim de semana, o dono paquistanês de um armazém em Dallas (Texas) e um indiano da seita sikh que era funcionário de um posto de gasolina em Mesa (Arizona) foram baleados e morreram no que o FBI acredita terem sido crimes raciais.

Além disso, três mesquitas em Dallas foram atingidas por balas e bombas de fabricação caseira nos últimos dias e, em Nova York, a polícia impediu que pessoas reunidas atacassem uma mesquita no East Village.

Também o Centro de Apoio à Família Árabe-Americana, em Nova York, recebeu centenas de telefonemas de árabes-americanos dizendo ter sofrido ameaças. Segundo a entidade e pelo menos um empresário ouvido pela reportagem, houve agressões físicas na Atlantic Avenue, no Brooklyn, reduto de imigrantes e descendentes do Iêmen e do Líbano.

Essa situação levou a comunidade muçulmana de Nova York a organizar uma passeata anteontem no Brooklyn. Centenas de norte-americanos de origem árabe, paquistanesa e africana percorreram as ruas do bairro até a Avenida East River, que dá para a ilha de Manhattan exatamente no ponto em que as torres ficavam. Mostraram cartazes com dizeres como ''Paz e amor para Nova York''.

mockup