São Paulo - Deveria ser uma viagem curta através da fronteira, em busca do eldorado tailandês. Mas, para 54 imigrantes birmaneses, o sonho de emprego e uma vida melhor no país vizinho terminou em tragédia. No noite de anteontem, eles morreram asfixiados no compartimento de carga do caminhão frigorífico lotado que os transportava.
Trinta e seis dos mortos eram mulheres -muitas adolescentes e uma ainda menina, de aparentes oito ou nove anos. Os 63 sobreviventes do grupo, que se espremia em um espaço de 2,5m x 6m, devem ser julgados pela tentativa ilegal de entrar no país, antes de serem deportados. Vinte deles estão hospitalizados.
Com PIB anual de US$ 8.000 e 10% da população vivendo abaixo da linha de pobreza, a Tailândia é uma opção atraente para os cidadãos de Mianmar (antiga Birmânia), que deixam um país com um PIB per capita quatro vezes menor, oprimido há 46 anos por governos militares. Estima-se que 1,5 milhão de birmaneses, a maior parte deles ilegais, trabalhem atualmente na Tailândia.
Um dos sobreviventes, o operário da construção civil Win, 30, que retornava ao país após visitar a família, conta que recebia pelo menos 250 baths (13,27 reais) por dia -o dobro do que ganharia em Mianmar. Ele diz ter pago 5.000 baths a uma intermediário pela viagem de 400 km, que quase lhe custou a vida, entre a cidade portuária birmanesa de Kawthaung e Phuket, na Tailândia.
Ao deixarem a cidade fronteiriça de Ranong, às 20 horas, os clandestinos pediram, por celular, que o motorista ajustasse o sistema de refrigeração. Quarenta e cinco minutos depois, as pessoas começaram a desmaiar. Sem sinal telefônico, não conseguiram avisar que o ar-condicionado estava quebrado e que morriam sufocadas. Win conta que chutavam, em vão, a cabine do motorista, numa tentativa de alertá-lo.
Quando o caminhão finalmente parou, por volta das 22 horas, os sobreviventes conseguiram arrombar a porta e pedir ajuda. O motorista fugiu.

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