Imagens de atrocidades teriam sido manipuladas
Ansa
De Moscou
Imagens sobre supostas atrocidades cometidas por soldados russos na Chechênia, mostradas ontem primeiro pela rede britânica BBC e a seguir por emissoras de todo o mundo, deveriam ser uma prova indiscutível de crimes de guerra, mas, segundo autoridades russas, são a fraude do ano.
As imagens de corpos, alguns mutilados, são indiscutíveis, mas o Kremlin pôde rechaçar facilmente as acusações com a ajuda do diário Izvestia: a filmagem não foi feita pelo jornalista alemão Frank Hoefling, que garantiu ser o autor dela, e não mostra, contrariamente ao afirmado, um descampado nas proximidades da capital chechena de Grozny em 22 de fevereiro.
A filmagem, afirmou o porta-voz do Kremlin, Sergei Yastryemski, foi feita por um enviado do Izvestia (que tem as fitas originais) em 14 de fevereiro e mostra cenas de um combate entre russos e guerrilheiros separatistas nas proximidades de Urus-Martan.
Depois do combate, acrescentou o porta-voz, os soldados russos, talvez sem muito respeito pelos mortos, reuniram os corpos puxando-os com cordas para sepultá-los provisoriamente em várias fossas comuns.
O filme original foi cedido em parte pelo Izvestia à agência de televisão alemã N-24, de Frankfurt, que as divulgou depois de editá-las e advertir que as imagens não constituem prova de atrocidades russas.
Segundo algumas fontes, o material circulava havia dias por Moscou e tinha sido oferecido a várias televisões ocidentais. Ao saber que a BBC havia transmitido as imagens, o serviço de segurança russo (FSB) reagiu afirmando tratar-se de uma falsificação, mas não apresentou provas.
Yastryemski e o chanceler Igor Ivanov haviam reagido com maior cautela. Trata-se de um material sério, tinha dito num primeiro momento o porta-voz do Kremlin, e pedimos uma investigação séria à promotoria militar.
Seria prematuro tirar conclusões, vamos esperar o resultado da investigação, havia afirmado Ivanov.
Ao receber do Izvestia as provas da falsificação, Yastyemski sugeriu que as imagens foram divulgadas intencionalmente para coincidir com uma visita a Moscou, ontem, do comissário de Direitos Humanos do Conselho da Europa, Alvaro Gil-Robles.
Ivanov autorizou Gil-Robles a visitar a Chechênia e insistiu, sem muito sucesso, que representantes internacionais participem das investigações sobre as supostas violações da Rússia no geral e sobre as denunciadas pela N-24 em particular.
Se for confirmada a versão do Kremlin e do Izvestia, o incidente criado pela BBC e pela agência alemã ameaça tirar a credibilidade de outras denúncias, possivelmente verdadeiras, sobre episódios de brutalidade promovidos pelas tropas russas na Chechênia.
Enquanto isto, o porta-voz do Kremlin anunciou que irá ser cancelado o credenciamento do jornalista alemão que divulgou as imagens através da N-24, o que o forçará a deixar a Rússia.





