Documento divulgado ontem por bispos espanhóis afirma que declaração favorável ao uso do preservativo foi um ''mal-entendido''
MADRI- As declarações do porta-voz da Igreja Católica da Espanha e secretário-geral da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), Juan Antonio Martínez Camino, anteontem, a favor do uso da camisinha na luta contra a Aids provocaram um grande desconforto. ''Os preservativos têm seu contexto em uma prevenção integral e global da Aids'', disse Martínez Camino à imprensa ao final de um encontro com a ministra da Saúde, Elena Salgado, destinada a ''colaborar de forma útil na luta contra esta doença''.
No dia seguinte, a Igreja reagiu com a convocação de uma reunião de emergência dos bispos espanhóis para elaborar um documento por escrito sobre o assunto. Seu texto final foi divulgado em uma clara tentativa de desdizer o porta-voz da CEE, referindo-se às declarações como um mal-entendido''.
''Não é possível aconselhar o uso do preservativo por ser contrário à moral'', segundo nota da Conferência. O comunicado esclareceu que Martínez Camino ''respondeu à imprensa (...) que o uso do preservativo tem lugar dentro do programa ABC.''
A política ABC, cuja sigla significa abstinência, fidelidade e uso de preservativos no combate da Aids, tem como um dos seus principais aliados o presidente americano George W.Bush, que vem sendo muito criticado por organizações e setores ligados ao combate da doença.
''Pessoas de outros países nos procuraram, chocadas, pedindo esclarecimentos. Entre elas, católicos da Argentina'', comentou um porta-voz da organização católica Opus Dei, na opinião da qual também houve ''má interpretação'' das declarações de Martínez Camino.
''A Igreja trabalha com um conceito absoluto para estes temas, ou seja, não admite que haja atenuantes e isto quem tem que dizer é a Santa Sé, não Martínez Camino'', acrescentou.
No Vaticano, o bispo espanhol José Luis Redrado Marchite, secretário-geral do Conselho Pontifício para a Saúde, lembrou que ''a moral católica condena'' o uso do preservativo e expressou suas dúvidas de que a Igreja tenha desejado se pronunciar a seu favor.
O episcopado espanhol reuniu-se ontem para preparar um comunicado, pois, segundo o Opus Dei, a influente corrente conservadora dentro da Igreja Católica na Espanha, ''tudo está muito confuso''.
''Este homem (Martínez Camino) tem que falar sobre o que está escrito, não precisando expor sua opinião, que não nos interessa'', disse o porta-voz da Opus Dei.

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