A Igreja divulgou ontem um documento que reafirma a suposta superioridade católica ante outras denominações cristãs e vai de encontro à campanha de reaproximação ecumênica e inter-religiosa liderada pelo papa.
Intitulada ‘‘Dominus Jesus’’, a declaração, aprovada por João Paulo II e assinada pelo porta-voz da ortodoxia católica, o cardeal Joseph Ratzinger, indica que o único caminho da salvação é o da Igreja Católica. ‘‘Apesar das divisões entre os cristãos, a igreja de Cristo continua a existir, em plenitude, na única Igreja Católica.’’
O documento, com 36 páginas, afirma que não-cristãos estão em ‘‘situação seriamente deficiente’’ e ressalta ‘‘defeitos’’ de outras denominações cristãs, especialmente o não-reconhecimento da primazia do papa.
Ratzinger é chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, e a reafirmação da exclusividade católica constitui uma nova vitória dos conservadores na Cúria.
Ratzinger, responsável pela preparação ‘‘apropriada’’ para a divulgação em detalhes do terceiro segredo de Fátima, em maio, combate a percepção de que o cristianismo é uma revelação historicamente limitada, imperfeita e que pode se completar com outras revelações.
A declaração do Vaticano não leva em conta ‘‘a compreensão mais profunda que se desenvolveu nos últimos 30 anos por meio de um diálogo e de uma cooperação ecumênica’’, entre católicos e anglicanos, afirmou George Carey, arcebispo anglicano.
O presidente da Federação Protestante da França, Jean Arnold de Clermont, também criticou a declaração. ‘‘Eu estou estupefato de ler um texto assim hoje, exatamente neste ano do Jubileu, ou seja, um ano de comemoração para todos os cristãos, enquanto nós esperávamos de Roma outra coisa no plano ecumênico’’, afirmou Clermont em entrevista ao jornal ‘‘Le Monde’’. Em 1964, a igreja declarou que via cristãos ortodoxos e protestantes como ‘‘irmãos de religião’’.

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