São Paulo - Os líderes dos países que participam da 19 Cúpula Ibero-americana, incluindo o Brasil, respaldaram ontem uma declaração da Presidência de Portugal, país sede do evento, que condena o golpe de Estado em Honduras e pede um ''diálogo nacional''. A assinatura foi anunciada pelo primeiro-ministro português, José Socrates, após o fracasso dos países em chegarem a um consenso para um texto conjunto sobre a crise em Honduras.
Segundo fontes da delegação espanhola, os líderes ibero-americanos não conseguiram vencer o racha - que divide a América Latina- entre os países que apoiam a eleição como única saída viável à crise política em Honduras, após cinco meses de negociações fracassadas, e aqueles que criticam o pleito como legitimização do golpe, já que o presidente deposto Manuel Zelaya não foi restituído.
Diante do impasse, explicaram as fontes, as partes decidiram não prolongar as negociações e encerrar a sessão plenária da cúpula.
Isoladamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve o duro discurso e reafirmou ontem que o Brasil não reconhecerá as eleições de Honduras nem conversará com o vencedor, Porfirio Lobo.
Indagado se o Brasil vai reconhecer Lobo como presidente de Honduras, Lula negou, assim como descartou a possibilidade de o governo brasileiro vir a conversar com o novo presidente eleito no domingo. ''Esse cidadão tem o direito de fazer as gestões que considerar necessárias. Se acontecer algo novo, vamos ver, vamos esperar. O problema agora é muito mais de Honduras do que do Brasil.''
Sobre a advertência lançada pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, contra a ''dupla moral'' de reconhecer as eleições iranianas e não reconhecer as hondurenhas, em uma clara alusão ao Brasil, Lula respondeu que ''são duas coisas diferentes''.
''O presidente do Irã participou nas eleições e obteve 62% dos votos, a Constituição não foi violada. É diferente de uma pessoa que deu um golpe repudiado por todos os países, pela OEA, que colocaram condições estabelecidas pelo próprio presidente da Costa Rica, que era a volta ao poder do presidente Zelaya.'' ''O golpista atuou cinicamente, convocou eleições para as quais não tinha direito. Não se pode fazer concessões a um golpista'', enfatizou.
''É um assunto de bom senso, uma questão de princípios, não podemos compactuar com o vandalismo político na América Latina'', enfatizou Lula. Sobre o que acontecerá com Manuel Zelaya, refugiado na embaixada brasileira desde 27 de setembro, Lula expressou seu desejo de que Honduras ''tome a decisão de permitir que Zelaya volte à normalidade''. ''A melhor coisa seria Zelaya voltar para casa, mas é preciso ter garantias constitucionais, do governo, da OEA, e isso tem que acontecer rapidamente'', acrescentou.
A respeito do fato de que os presidentes que assistiram à cúpula não conseguiram chegar a um acordo numa declaração comum sobre Honduras, Lula disse que ''não é necessário ter uma posição comum''. ''Não somos uma instância de deliberação sobre Honduras nem sobre outra coisa qualquer. Se a cúpula tivesse sido convocada para discutir Honduras, eu não teria vindo. Eu vim porque me interessa o tema da cúpula, inovação e conhecimento.''

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