Beirute, Líbano- Milícias da oposição libanesa, liderada pelo grupo radical xiita Hizbollah e apoiada pelo Irã e pela Síria, tomaram ontem o lado oeste de Beirute, empurrando o país para a beira de um conflito civil no terceiro dia de confrontos entre grupos armados pró e antigoverno.
  A capital e outras cidades continuam tomadas por combates que já deixaram, até a noite de hoje, ao menos 19 mortos e 30 feridos. As milícias avançam para o porto, protegido pelo Exército.
  A deterioração da situação interna do Líbano ameaça desequilibrar o delicado balanço de forças na região e envolver em um conflito países vizinhos. ‘‘O Oriente Médio ficará mais perigoso com um Líbano em guerra civil, isso é certeza’’, disse à reportagem a socióloga e especialista em Ciência Política por Harvard Sophie Saade. ‘‘Os efeitos serão sentidos sobretudo na Síria e em Israel.’’
  Damasco ocupou militarmente o Líbano até 2005, apóia o Hizbollah e está intimamente ligada à política libanesa. Já Israel, que travou guerra com o grupo xiita por 33 dias em 2006, dificilmente ficaria de braços cruzados ante um fortalecimento e avanço das milícias para perto de sua fronteira.
  O conflito atual e o enfraquecimento do governo pró-Ocidente já é o produto de uma batalha de duas agendas distintas na região, explica Saade. Uma americana-israelense e outra sírio-iraniana, que aos poucos parece estar se impondo.
  Na capital libanesa, a oposição venceu batalhas e rapidamente controlou 11 bairros, quase todo o lado muçulmano no oeste de Beirute. As milícias logo ergueram pontos de checagem em ruas que levam à sede do governo, que continua sob proteção do Exército.
  ‘‘A vitória rápida da oposição nas ruas confirmou a fraqueza do governo de Siniora e seus aliados’’, avalia Saade, ‘‘dando mais munição para o avanço do Hizbollah e seus aliados’’.
  Sitiado pelos milicianos em sua casa, o líder sunita governista Saad Hariri - filho do ex-premiê Rafik Hariri, cujo assassinato, em 2005, foi a gênese da atual crise- pediu a volta das negociações. O Hizbollah rejeitou a proposta.
  O governo havia anunciado na segunda que investigaria uma rede de comunicações privada do Hizbollah que, alega, viola a soberania do Estado libanês. A medida provocou a ira do grupo, que salientou que a rede era parte de sua estrutura militar e que elementos do governo trabalhavam como ‘‘espiões para EUA e Israel’’.
  Na quarta, sindicatos pró-oposição realizaram uma greve geral por aumento de salários. Os protestos logo se tornaram confrontos violentos, colocando militantes pró e anti-governo em batalhas nas ruas da capital. A oposição exige a renúncia de Siniora, apoiado pelos EUA e outros países ocidentais.
  A oposição fechou a TV Futuro, o jornal ‘‘Al Mustaqbal’’ e a rádio Al Sharq, ligados a Hariri, quando militantes atacaram os prédios das empresas com fuzis e lança-granadas. Uma fumaça preta podia ser vista do prédio do jornal em chamas.
  O Exército libanês adotou a política de neutralidade no confrontos, garantindo apenas a segurança de civis e prédios governamentais. Na manhã de ontem, o governo estudava a possibilidade de declarar estado de emergência, rapidamente rejeitada pelo comando do exército, já que obrigaria a instituição a interceder no conflito, o que poderia provocar sua desintegração devido a lealdades sectárias dos soldados.

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