São Paulo- Uma nova realidade política foi estabelecida nos territórios palestinos ontem, depois que o movimento islâmico Hamas assumiu o controle total da faixa de Gaza ao tomar os últimos bastiões militares do grupo laico Fatah. Em seis dias de luta, que deixaram pelo menos 110 mortos, o grupo fundamentalista conquistou os principais símbolos de poder do rival, varrendo de Gaza a facção que dominou por quatro décadas a política palestina.
Após ver, impotente, o avanço do Hamas em Gaza nos últimos dias, o presidente da Autoridade Nacional Palestina e líder do Fatah, Mahmoud Abbas, decretou estado de emergência e dissolveu o governo de união numa reunião de emergência em Ramallah, na Cisjordânia.
Em Gaza, o Hamas reagiu com desdém ao anúncio. Sami Abu Zuhri, porta-voz do grupo, disse que as decisões do presidente ''não têm valor prático''.
Formado há três meses numa tentativa de deter a violência entre Fatah e Hamas, o gabinete conjunto jamais cumpriu essa missão, afundando na incapacidade dos dois grupos de dividir o poder, sobretudo no crucial setor de segurança.
Página virada
''O governo de união é página virada'', disse, por telefone, o negociador-chefe do Fatah e um dos principais interlocutores políticos de Abbas, Saeb Erekat, pouco antes do anúncio do presidente. Abbas justificou o estado de emergência como uma reação à ''guerra criminosa'' do Hamas em Gaza e anunciou a criação de um ''governo de salvação''.
Enquanto o Fatah fazia declarações na Cisjordânia, em Gaza o Hamas consolidava o seu poder a bala. No momento em que o presidente anunciava a dissolução do governo, os fundamentalistas já tinham tomado praticamente todas as principais instituições de segurança do Fatah em Gaza, inclusive o quartel-general da Segurança Preventiva, um dos principais eixos do poder local.
Só restava o complexo presidencial, que os militantes do Hamas afirmaram ter tomado no fim da noite. ''Gaza está totalmente controlada pelo Hamas'', contou o jornalista Hamza el-Attar, da agência de notícias palestina Ramattan. ''Os soldados do Fatah fugiram pelo Egito, Israel ou pelo mar. Nas ruas de Gaza só há homens do Hamas.''
Segundo fontes médicas de Gaza, pelo menos 30 pessoas morreram ontem, elevando a 111 o número de vítimas nos seis dias de confrontos. Após capturar o QG da Segurança Preventiva, os milicianos do Hamas arrastaram os membros do Fatah para fora do complexo e os executaram na rua, disseram testemunhas à agência Associated Press.
Fundada por Mohamed Dahlan, considerado pelo Hamas o inimigo número um nas fileiras do Fatah, a Segurança Preventiva era uma força de elite que recebia ajuda dos Estados Unidos em treinamento e armas. Sua troca de mãos deve ter especial ressonância na guerra entre os dois grupos.
Sintomaticamente, Dahlan, um dos homens fortes do aparato de segurança do Fatah em Gaza, retornou hoje do Egito, onde convalescia de uma cirurgia, direto para a Cisjordânia. Pouco após a invasão, a TV ligada ao Hamas anunciou que o QG seria transformado em uma escola islâmica.
''Vejo três cenários possíveis: o Hamas consolidar o poder em Gaza e finalmente adota uma linha pragmática, de diálogo com a comunidade internacional; o grupo mantém o extremismo e isola ainda mais a faixa de Gaza, aumentando o risco de uma intervenção israelense; ou o Fatah reage e tenta recuperar o poder, o que configurará uma guerra civil'', disse Avraham Sela, especialista em extremismo palestino da Universidade de Jerusalém, atualmente lecionando na Universidade Colgate, nos EUA.

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