Guerra não respeita nem o que sobrou do Paraíso
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quarta-feira, 05 de fevereiro de 2003
Sammy Ketz<br> France Presse 
Qurna, Iraque - Zahra usa uma tesoura para cortar o pedaço de uma árvore ressecada que, segundo a lenda iraquiana, é um vestígio do Jardim do Éden, e guarda amorosamente o ramo que oferecerá a seu filho soldado.
Esta mulher, coberta com uma abaya (vestido árabe), o rosto prematuramente enrugado, veio de ônibus com algumas amigas a Qurna, 500 km ao sul de Bagdá, para ajoelhar-se ante à ''árvore de Adão'' e levar consigo alguns pedaços da mesma.
''Se explodir a guerra, que Deus nos proteja, espero que meu filho único, que atualmente presta serviço militar, saia são e salvo dela'', explica.
Segundo a lenda, este fértil terreno na confluência dos rios Tigre e Eufrates foi o bíblico Jardim do Éden e o fruto que Eva ofereceu a Adão teria saído desta mesma árvore. ''Meu desejo é que nos proteja de todas as calamidades: guerra, mísseis, um ataque norte-americano'', declara sua amiga, Ibtissam Shalhub, tocando fervorosamente a árvore sem vida que domina o Tigre.
Com a ameaça de uma guerra por parte dos Estados Unidos, nem no Paraíso reina a paz. ''A guerra sempre está presente. A aviação norte-americana realiza vôos durante todos os dias'', diz Zirak Baya, 40 anos, administradora de um hotel constuído junto aos dois grandes rios da antiga Mesopotâmia.
Segundo Baya, uma das bombas lançadas pelos norte-americanos chego a quebrar todos os vidros de seu hotel. ''Felizmente ninguém ficou ferido'', acrescentou, explicando que seus hóspedes são basicamente técnicos da indústria petrolífera de diversas nacionalidades.
Em torno desta cidade de 250 mil habitantes se estende uma gigantesca selva de palmeiras, mas centenas dessas árvores foram destruídas pelos mísseis iranianos durante a guerra de 1980-1988.
''Certa noite de 1984, os soldados iranianos postados do outro lado do rio o atravessaram e mataram vários habitantes antes que nossas forças os expulsassem'', recorda Abu Dia, um habitante de 75 anos.
A perfuração de uma ponte que cruza o Eufrates é um dos estigmas da Guerra do Golfo de 1991. ''Meu pai morreu em 1991 quando eu preparava as redes para pescar com ele'', conta Ihsan Rahim, pescador local.
O xeque Nuri Hussein Ali, o muezim da mesquita Hajj Najem de Qurna, conta que, nos primórdios dos tempos, essa terra não possuía água, mas então surgiu a vida e apareceu o primeiro homem sobre a Terra.
''Era Adão e a árvore é tão antiga quanto o mundo. Depois o diabo entrou no cérebro de Caim, que matou Abel. Mas na cabeça dos norte-americanos não se aloja o diabo, e sim a cobiça. Eles querem nossas riquezas, nosso petróleo, nossas terras, nosso Paraíso. Isso nós não permitiremos'', garante.


