'Guerra do gás' leva Bolívia ao caos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de junho de 2005
François Bougon<br> France Presse 
La Paz - Um presidente demissionário, um Congresso que não consegue se reunir para escolher o sucessor e movimentos sociais liderados pelos setores mais radicais. A segunda ''guerra do gás'' está conduzindo a Bolívia ao precipício. A classe política parece paralisada e grandes dúvidas subsistem sobre a sessão do Parlamento que deve designar o sucessor de Mesa. Por uma questão de segurança, a reunião foi marcada para hoje pelo presidente do Senado, Hormando Vaca Diez, em Sucre, a capital constitucional do país, situada a 740 km a sudeste de La Paz.
Na terça-feira à tarde, o presidente demissionário Carlos Mesa dirigiu-se ao país num discurso em cadeia de rádio e TV, afirmando, em tom grave, que a Bolívia, paralisada por mais de 20 dias de tensão social, estava ''à beira da guerra civil''.
''A Bolívia viu sangue, sangue e sangue ao longo de sua história, o que ganhamos com o sangue?'', afirmou este intelectual e historiador de renome. Desde sua independência em 1825, a Bolívia passou por 200 golpes de Estado e tentativas de golpe, até a instauração da democracia em 1982.
Em outubro de 2003, a primeira ''guerra do gás'' conduziu Mesa ao poder após a fuga do presidente Gonzalo Sanchez de Lozada durante um mês de violência que deixou mais de 80 mortos. Ontem, as estradas continuavam bloqueadas na maioria das regiões. Perto de La Paz, os habitantes de El Alto, subúrbio pobre e quartel-general dos partidários da nacionalização dos hidrocarbonetos, fizeram barricadas com pedras e pneus em chamas, impedindo o tráfego.
Outro sinal da degradação da situação. Os setores mais radicais, sobretudo o dos mineiros, estão agora à frente das manifestações, promovendo ações violentas. Na terça-feira, a polícia apreendeu em La Paz explosivos, um carregador de metralhadora e interrogou vários mineiros sobre os conflitos que deixaram uma dúzia de feridos.
''Os mineiros vieram para fazer uma guerra'', estimou o diretor do departamento da polícia técnica judiciária, o coronel Miguel Estremadoiro. Para Abel Mamani, líder dessa poderosa federação (Fejuve), que reúne mais de 600 comitês de El Alto, ''são os habitantes que querem continuar''. ''Acusam-me de tudo, mas eu é que estou preocupado'', defendeu-se, acusando o governo de deixar os ''delinquentes'' agirem.
No entanto, o líder opositor Evo Morales pediu ontem aos agricultores quéchuas que impeçam a transferência da sessão do Congresso para a cidade de Sucre (sudeste). Segundo Morales, os bloqueios de estradas em torno dessa cidade subandina, onde há quase 180 anos foi fundada a república, se intensificarão para evitar a posse do presidente do Congresso, Hormando Vaca Diez.
Em meio à convulsão social, um grupo de indígenas ocupou ontem sete áreas das petroleiras Repsol (Espanha) e British Petroleum (BP, Grã-Bretanha) no departamento de Santa Cruz, como parte das mobilizações sociais pela nacionalização dos combustíveis na Bolívia, informaram fontes da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos (CBH).


