Associated Press
De Viena
Logo após a posse do primeiro governo austríaco com a participação da extrema direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial, 14 países da União Européia (UE), Estados Unidos e Israel começaram ontem a submeter a Áustria a um forte isolamento político de consequências imprevisíveis.
Os governos americano e israelense retiraram seus embaixadores da capital austríaca. Os países da UE, entre os quais Portugal (que exerce a presidência rotativa da UE), Alemanha, França, Bélgica, Dinamarca e Finlândia, anunciaram a aplicação automática das três sanções anunciadas na segunda-feira: suspensão das relações políticas, veto a todas as aspirações austríacas a cargos internacionais e redução dos contatos com os embaixadores austríacos a um nível meramente técnico. França e Bélgica ameaçam com ‘‘medidas adicionais.’’ O general Wesley Clark, comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), cancelou encontro marcado para Viena com militares austríacos.
Durante mais de 50 anos, houve uma alternância de poder no país, entre o Partido Social-Democrata (SPD) e o conservador Partido Popular Austríaco (OeVP). A tradição foi quebrada pelo líder conservador Wolfang Schuessel que nunca escondeu sua ambição de ocupar a chancelaria (chefia do governo). E, segundo seus críticos, para concretizar esse sonho não relutou um momento em ‘‘aliar-se ao diabo’’ – referência a Joerg Haider, chefe do xenófobo Partido da Liberdade (FPOe).
Em meio a violenta manifestação pública contra o ‘‘governo neonazista’’ nas ruas e praças da capital austríaca, Schuessel prestou juramento no Palácio Hofburg, perante o presidente austríaco, Thomas Klestil. Diante da sede da presidência, pelo menos 5 mil pessoas entravam em choque contra políciais, atirando pedras e coquetéis molotov. Houve necessidade de reforço para conter os manifestantes que ameaçavam invadir o edifício. Vários agentes ficaram levemente feridos e houve dezenas de detenções.
Schuessel reuniu-se em seguida com os membros de seu gabinete – dos quais metade pertencem ao ultradireitista FPOe. ‘‘Haider não vai dar palpites, limitando-se às suas funções de governador da Carintia’’, procurou tranquilizar a conservadora Benita Ferrero-Waldner, nova ministra das Relações Exteriores. Mas logo em seguida, ele lançou uma advertência aos sócios europeus da UE: ‘‘Todos eles vão ter de sentar-se ao nosso lado, diante da mesa; caso contrário, não haverá nenhuma resolução, nenhuma decisão na Europa.’’
Haider controla os cinco mais importantes dos dez ministérios do governo: Finanças; Defesa; Trabalho, Saúde e Previdência; Justiça; e Infra-Estrutura. Além disso, a lugar-tenente dele, Sussanne Riess-Passar, também conhecida como ‘‘Cobra Real’’, exercerá a vice-chancelaria e controlará a política da mulher no país.
Ao fim do encontro ministerial, Schuessel disse aos jornalistas que vai governar ‘‘com vontade e determinação’’. Sobre as críticas, citou uma frase de Albert Eistein: ‘‘É mais fácil destruir um átomo do que mudar uma opinião formada, mas vamos tentar...’’
Pelo menos um país parece não temer a ascensão da ultradireita austríaca ao poder: a Rússia. O chanceler Igor Ivanov disse que Moscou segue atentamente os acontecimentos, mas tem ‘‘imensa confiança na democracia austríaca’’.
Haider recebeu também a solidariedade de neofascistas italianos. ‘‘Tenho muito medo da gente que tem medo de Haider’’, disse a deputada Alessandra Mussolini, neta do Duce. Sob pressão, Haider tentou amenizar suas posições e até aceitou desafio de um rabino italiano para visitar um antigo campo de extermínio de judeus em Trieste.Gabinete empossado ontem é o primeiro com a participação da extrema direita desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945
France Presse‘Cara amarrada’Kestil (d) dá posse a Schuessel: contragostoFrance PresseVienaManifestantes repudiam o novo governo

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