Governo Bush de novo em xeque
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quinta-feira, 17 de junho de 2004
France Presse 
Washington - A falta de provas de ligações entre o grupo terrorista Al-Qaeda e o regime de Saddam Hussein coloca de novo o governo americano em xeque. Além de terem sido incapazes de encontrar armas de destruição em massa no Iraque, principal justificativa apresentada para a invasão do país, os Estados Unidos ainda estão tendo que lidar com o escândalo de torturas de prisioneiros iraquianos praticada por seus militares.
O primeiro relatório da Comissão de Investigação Independente sobre os atentados de 11 de setembro afirma que não há provas concretas de uma cooperação entre Bagdá e a Al-Qaeda.
Este informe representa mais um golpe nos argumentos do presidente George W. Bush e de sua equipe para justificar a guerra. O adversário democrata de Bush na eleição de novembro, o senador John Kerry, já acusou o governo de ter ''induzido a América a um erro''.
O jornal New York Times pediu em um editorial ao governo Bush que ''se desculpe'' mais uma vez por ter apresentado argumentos sobre o Iraque que não procedem.
A Casa Branca reagiu rejeitando qualquer idéia de mea culpa. ''Não acredito que o presidente tenha o hábito de ler os editoriais do New York Times'', declarou o porta-voz de Bush, Scott McClellan. Apesar dos desmentidos do informe da comissão, McClellan manteve a linha do discurso oficial, garantindo que ''os laços do Iraque com o terrorismo são antigos e bem conhecidos, e incluem a Al-Qaeda''.
O próprio presidente Bush repetiu nesta quinta-feira que Saddam Hussein tinha ''ligações'' com a Al-Qaeda. Entretanto, as objeções de vários especialistas, inclusive de alguns do governo, que avaliam como sem conteúdo este dossiê oficial, vêm minando a sua capacidade de convencer a opinião pública.
O secretário de Estado Colin Powell denunciou as ''conexões sinistras entre o Iraque e a rede terrorista Al-Qaeda'' em uma apresentação das acusações americanas contra Bagdá diante da ONU em fevereiro de 2003.
Bush afirmou no dia 1º de maio do ano passado que ao derrubar o ditador iraquiano ''estaria fazendo partir um aliado da Al-Qaeda e cortando uma fonte de financiamento do terrorismo''.
Seu vice-presidente, Dick Cheney, reforçou o discurso na última segunda-feira, garantindo que Saddam Hussein ''tinha ligações de longa data com a Al-Qaeda''.
A afirmação da equipe de Bush sobre os laços de Saddam Hussein com a organização terrorista islamita, repetida inúmeras vezes, acabou por convencer vários americanos, apesar da falta de provas concretas.
De acordo com a pesquisa do instituto American Public on International Issues, divulgada no dia 23 de abril, 57% dos americanos acreditavam até esta data que o Iraque apoiava a rede de Osama Bin Laden, enquanto 20% achavam que o governo deste país estava diretamente envolvido nos atentados de 11 de setembro de 2001.


