Num ambiente dominado pela frustração e o rancor, as campanhas dos dois candidatos à não resolvida eleição presidencial dos Estados Unidos continuaram ontem a trocar acusações e advertências e mantiveram a mais próspera e politicamente estável democracia do planeta no caminho desconhecido para os americanos de uma potencial crise sucessória.
No centro da inusitada e grave controvérsia está o resultado da eleição na Flórida, que terminou com a vitória do candidato republicano, o governador do Texas, George W. Bush, sobre o rival democrata, o vice-presidente Albert Gore, por 2.910.198 a 2.909.871, ou seja, uma diferença de meros 327 votos num total de quase 6 milhões, segundo dados compilados pela Associated Press juntos às autoridades dos 67 distritos eleitorais da Flórida depois de uma primeira recontagem automática dos votos.
Tal recontagem é exigida por lei quando a diferença entre os dois primeiros candidatos é menor do que 0,5%. Quem vencer a eleição popular receberá a totalidade dos 25 votos eleitorais da Flórida no colégio eleitoral que é o mecanismo constutucional definidor dos pleitos presidenciais. É eleito quem receber a maioria absoluta dos 538 votos do colégio eleitoral, ou seja, 270, não importando o resultado final da votação popular nacional.
Gore, que terminou na frente na apuração dos votos diretos da população (ainda não foi finalizada, por causa dos votos por correspondência em vários estados) ganhou em 19 estados e no Distritos de Colúmbia e recebeu 260 votos eleitorais. Bush chegou em primeiro em 31 estados e tem 246 votos eleitorais. Além da Flórida, a eleição também está indefinida no Oregon, que tem 7 votos eleitorais e este ano tornou-se o primeiro estado a fazer toda a eleição pelo correio.
O ex-secretário de Estado republicano James Baker lembrou ontem que nos últimos 40 anos duas vezes os republicanos decidiram não prolongar disputas sobre resultados de eleições apertadas à Casa Branca – em 1960, quando Richard Nixon perdeu para John Kennedy, e em 1976, quando o presidente Gerald Ford foi derrotado por Jimmy Carter.
Bush, que praticamente se autoproclamou vencedor da eleição, na quarta-feira, iniciou ontem as consultas preliminares para a formação de sua equipe de transição. ‘‘Nós sabemos quais foram os resultados da eleição e é assim apropriado que o governador comece a pensar sobre governar o país’’, disse o chefe de sua campanha, Don Evans.
Em Washington, o chefe da campanha de Gore, William Daley, indicou que os democratas ainda não estão convencidos de que devem entregar os pontos. ‘‘Contrariamente a afirmações feitas esta manhã pela campanha de Bush, esta eleição ainda não terminou’’, disse Daley. ‘‘Nós queremos que prevaleça a verdadeira e (que conta) acurada vontade popular e isso significa deixar que o sistema legal realize seu trabalho’’, acrescentou ele. ‘‘Se, no final desse processo, George Bush for vitorioso, respeitaremos o resultado.’’
Do ponto de vista dos democratas, os novos números da votação na Flórida, divulgados na manhã de ontem, embora não oficiais, levantaram novas dúvidas sobre a credibilidade do sistema eleitoral do estado e reforçaram as suspeitas sobre possíveis irregularidades. Eles mostraram que uma simples recontagem - que não consiste numa reapuração mas apenas na revisão das planilhas eleitorais para ver se a soma dos sufrágios válidos recebido por cada candidato batem com os de eleitores que votaram - produziu um total de 2.531 novos votos (537 para Bush, 1.994 para Gore) que não haviam sido contabilizados no primeiro resultado oficioso anunciado na manha da quarta-feira. Este havia dado a vitória ao candidato republicano por uma vantagem de 1.784, ou quatro vezes mais do que o resultado também oficioso publicado ontem e que não inclui os votos por correspondências. O prazo para a apuração desses votos, cujo número exato é desconhecido, termina na próxima sexta-feira.
A Comissão de Eleições da Flórida promete os resultados oficiais dos votos depositados nas urnas até a próxima terça-feira. Mas isso poderá não resolver a disputa, pois os democratas pediram que os votos sejam recontados à mão em quatro distritos, incluindo Palm Beach, um distrito fortemente democrata onde um problema de desenho da cédula parece ter levado milhares de eleitores de Gore a votar num outro candidato ou a anular sua cédula ao tentar corrigir o erro. A recontagem à mão, que será feita no fim da semana, abrangerá uma amostra de apenas 1% dos votos. Mas, diante da margem microscópica da aparente vitória de Bush, pode alterar e até mudar o resultado final. Segundo o jornal The Washington Post, funcionários eleitorais da Flórida disseram que pelo menos 100 mil votos para presidente ficaram em branco em vários distritos, aparentemente porque os eleitores não puxaram até o fim a alavanca que aciona o mecanismo de perfuração do cartão-cédula que é lido depois por uma máquina.

mockup