A maioria dos cerca de 75 milhões de americanos que assistiram ao primeiro debate entre os dois principais candidatos à presidência dos Estados Unidos achou que o vice-presidente Al Gore saiu-se melhor. A confrontação não mudou a opinião de muitos eleitores sobre Gore e seu rival republicano, o governador do Texas, George W. Bush, os únicos dos mais de 20 concorrentes que têm chances de chegar à Casa Branca. Várias pesquisas indicaram que o debate não afetou a preferência de mais de 95% dos eleitores nem alterou as tendências dos eleitores. Nesse sentido, ele pode ter ajudado Gore a garantir a vitória no dia 7 de novembro, pois a inclinação dos americanos antes do debate favorecia o vice-presidente e já estava visível na vantagem que ele já abriu sobre Bush na contabilidade, Estado por Estado, dos 538 votos do colégio eleitoral que tecnicamente decide o pleito.
Por 56% a 42%, segundo uma sondagem da rede CBS, ou por 48 a 41%, de acordo com uma pesquisa Gallup feita para a CNN e o jornal USA Today, os eleitores gostaram mais do desempenho de Gore. Como se esperava, o vice-presidente mostrou maior domínio dos temas em discussão e mais habilidade em apresentar seus argumentos de uma forma articulada e atacar seu adversário. Com mensagens mais claras e calibradas para atingir parcelas específicas dos eleitores – os independentes nos Estados do Meio-Oeste, os aposentados da Flórida, as mulheres –, Gore foi incisivo ao atacar o programa de redução de impostos de Bush como uma dádiva para o 1% mais rico da população e denunciar a timidez de sua proposta de ampliação do seguro federal de saúde Medicare para cobrir os medicamentos para idosos.
A discussão sobre o que fazer com o fabuloso saldo fiscal de mais de US$ 4 trilhões projetado no orçamento federal nos próximos 15 anos ocupou cerca de um terço da discussão, que foi surpreendentemente substantiva para os padrões recentes do debate político americano.
O vice-presidente também marcou pontos na questão do aborto, que usou para lembrar os eleitores de que o próximo ocupante da Casa Branca provavelmente nomeará três a quatro dos nove ministro da Suprema Corte e poderá determinar, assim, se o aborto continuará a ser permitido no país. Mais de dois terços dos americanos e perto de 80% das mulheres são pela manutenção da legalidade do aborto. Gore, que compartilha essa posição, virou contra Bush o argumento clássico da intervenção estatal na vida dos cidadãos que os republicanos usam contra os democratas nas discussões econômicas, acusando seu rival, um opositor do aborto legal, de querer ‘‘que o governo determine o que as mulheres devem fazer’’ quando engravidam e negar-lhes o ‘‘direito de escolha’’.
Mas o duelo verbal de 90 minutos, o primeiro de uma série de três, não foi o desastre para Bush que alguns simpatizante de Gore chegaram a prever. Bush não cometeu nenhuma gafe e enfrentou Gore como um igual numa discussão que, em alguns momentos, resvalou para a chatice, com os dois candidatos recitando os mínimos detalhes de suas propostas. Frustrado, Dan Rather, o veterano âncora da rede CBS, classificou o debate de ‘‘indução à narcolepsia’’.
Embora tenha ficado visivelmente na defensiva em mais de uma ocasião e tentado sair do aperto usando frases de efeito que não funcionaram, Bush atendeu sem problemas ao baixo padrão de expectativa que seus assessores haviam criado. Por esse pouco exigente critério, a confrontação, ocorrida em Boston, sob a competente mediação do jornalista Jim Lehrer, foi um sucesso para o governador do Texas - mas não o foi suficiente para tirá-lo do rumo da derrota em novembro, que começa a desenhar-se.