George Bush proclama vitória nos EUA
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quinta-feira, 09 de novembro de 2000
Paulo Sotero Agência Estado De Washington 
Os aproximadamente cem milhões de norte-americanos que foram às urnas na última terça-feira para eleger o sucessor do presidente Bill Clinton deram cerca de 170 mil sufrágios de vantagem ao vice-presidente Albert Gore em relação a seu rival republicano, o governador do Texas, George W. Bush. Mas Bush, que parece ter prevalecido na contagem dos votos do colégio eleitoral, que constitucionalmente define o pleito, proclamou sua vitória na tarde de ontem.
O resultado oficial da mais extraordinária eleição presidencial da história dos Estados Unidos só deverá ser conhecido hoje à noite, quase 48 horas depois do encerramento da votação, quando o vice-governador e secretário da Justiça da Flórida anuncia o resultado da recontagem dos votos, que começou ontem em Tallahassee, a capital do estado, sob os olhares vigilantes de delegações dos dois candidatos chefiadas por ex-secretários de Estado, o republicano James Baker e o democrata Warren Christopher.
A primeira apuração dos quase 6 milhões de votos terminou com Bush à frente de Gore por meros 1.655 unidades e provocou a recontagem automática exigida pelas leis locais sempre que a diferença entre o primeiro e o segundo colocados é menor do que 0,5% do total de sufrágios registrados.
O povo norte-americano pronunciou-se, mas vai levar algum tempo para determinar exatamente o que ele disse, afirmou Clinton, resumindo a perplexidade do país diante de uma eleição que desmentiu praticamente quase todas as expectativas, viu Gore e depois Bush serem declarados vencedores da Flórida pelas redes de televisão num intervalado de algumas horas e chegou a estar decidida na madrugada de anteontem, levando o próprio Gore a telefonar a Bush para conceder-lhe a vitória, antes de ser novamente dada como empatada e indefinida.
As recontagens de votos nos Estados Unidos raramente produzem uma alteração significativa dos votos, capaz de alterar o primeiro resultado anunciado. Os primeiros seis distritos onde os votos começaram a ser recontados, ontem à tarde, revelaram uma diferença de apenas 23 votos a favor de Gore.
Militantes democratas alimentavam a esperança de que suas urnas de uma região fortemente democrata da região de Miami, que aparentemente tinham desaparecido e foram localizadas hoje num bairro negro, contenha os sufrágios necessários para colocar o vice-presidente à frente e dar-lhe os 25 votos eleitorais da Flórida. Somados aos 260 que obteve nos estados da Nova Inglaterra e do Meio Oeste, mais os da Califórnia, Washington, Novo México e Hawai, eles colocariam o vice-presidente acima da maioria de 270.
Porta-vozes do Partido Democrata reclamaram da confusa cédula usada para a votação presidencial num distrito de Palm Beach, que produziu um apoio surpreendentemente alto de 3.400 por urna para o candidato nanico Patrick Buchanan, bem acima da média de 400 votos que ele vinha recebendo no estado.
Algumas eleitoras idosas, que pretendiam votar por Gore, disseram depois que ficaram confusas e provavelmente erraram seu voto por causa do desenho enganoso da cédula.
A favor de Bush havia, no entanto, cerca de 2 mil votos por correspondência, na maioria solicitado por militares em serviço no exterior, que tendem a apoiar candidatos republicanos.
Perguntado, ontem, se Gore contestará legalmente os resultados caso a recontagem confirme a vitória de Bush, o presidente de sua campanha, Bill Daley, respondeu: Eu duvido.
Da atitude do vice-presidente dependem as consequências imediatas de uma eleição que produziu um presidente fraco, sem um mandato político claro e, se Bush de fato vencer, com um óbvio problema de legitimidade, por não ter obtido a maioria da votação popular.
A votação para a Câmara de Representantes e o Senado manteve o Congresso sob o controle dos republicanos, mas com maiorias mais apertadas do que já tinham antes, o que tornará muito difícil a aprovação do programa de governo que Bush apresentou em sua campanha.
Se alguém chegasse a Hollywood com um roteiro de filme com o drama que vivemos esta noite, seria posto porta afora por exagerar na ficção, disse no início da madrugada o produtor Bob Reiner, que viveu as muitas emoções da noite no comando da campanha de Gore, em Nashville.
Líderes mundiais enviaram mensagens de parabenização mas apressadamente as desfizeram. Jornais imprimiram apressadamente novas edições. E de Hong Kong a Helsinque, cidadãos comuns se admiravam com o caótico espetáculo eleitoral nos Estados Unidos.


