Usando dados do Projeto Genoma Humano, cientistas identificaram o gene capaz de fazer com que algumas células cancerígenas se desprendam do tumor e se instalem em outras partes do organismo, causando a metástase.
Esse processo é responsável por 90% das mortes de pacientes com câncer, daí a importância da descoberta. O estudo é um dos dois publicados esta semana na revista Nature sobre câncer – o outro é sobre o melanoma, a mais grave forma de câncer de pele.
As duas pesquisas acenam com a possibilidade de deter a metástase antes que ela se instale. Uma analisa um grupo de genes envolvidos no processo de metástase e a outra, o papel de um único gene na disseminação do melanoma.
Richard O. Hynes, diretor do Centro de Pesquisa de Câncer do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e sua equipe identificaram a função do gene rhoC, fundamental na disseminação de alguns tipos de melanoma.
Usando células humanas e de camundongos, eles mostraram como esse gene detona os eventos que determinam a migração da célula de um melanoma. Esse é um dos mais persistentes mistérios da medicina, pois essas células não são identificadas pelas células de defesa e dão origem a novos tumores em outras partes do organismo.
Segundo Hynes, nem todas as células cancerígenas são capazes de migrar e atravessar a parede de artérias e veias para chegar ao sangue, o meio que utilizam para viajar pelo corpo. ‘‘A corrente sanguínea é como um rio turbulento’’, compara Hynes.
A célula metastática não apenas tem meios de escape, como é resistente o bastante para enfrentar essa turbulência. Ela mantém suas propriedades de adesão – a ‘‘cola’’ biológica que segura todas as células em seu lugar – por um período suficiente para crescer e se dividir no tumor original. Em seguida, perde essas qualidades a fim de se separar e migrar, para, mais tarde, recuperá-las e estabelecer um novo tumor em outra região do corpo.
O gene rhoC lança nova luz sobre esse processo de perda e recuperação da adesão. Robert Radinsky, médico pesquisador do laboratório farmacêutico Amgen, da Califórnia, e especialista em metástase, classificou a descoberta de ‘‘avanço bastante significativo’’.
Segundo Radinsky, a metástase é o evento-chave na biologia do câncer, pois, sem ela, o câncer seria uma doença facilmente tratável. ‘‘A metástase é um processo dinâmico em que genes são alternadamente ativados e desativados e geralmente quando o câncer é diagnosticado, a metástase já está em andamento’’, explica.
Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, em Maryland, descobriram uma ‘‘assinatura genética’’ que pode ajudar a explicar detalhadamente como o melanoma se dissemina.
Juntas as duas pesquisas desvendam o papel de vários genes na migração de células malignas.
‘‘Saber o que faz cada tumor se disseminar vai permitir a elaboração de terapias individuais, personalizadas para cada paciente’’, afirma Paul Meltzer, pesquisador do instituto.
Usando biochips, os pesquisadores verificaram quais genes são acionados e quais são desativados nesse processo.

mockup