Gilles Lapouge Agência Estado
Algumas garrafas de Coca-Cola na Bélgica e no norte da França têm um gosto esquisito. As bolhas de gás são estranhas. E o gigante americano Coca-Cola treme: um bilhão de garrafas de Coca vendidas por dia no mundo. US$ 3,5 bilhões de lucros no ano que vem. Maravilha. Prosperidade. Mas, de repente, dois milhões de belgas não gostam do sabor da Coca vendida em seu país e cria-se um verdadeiro pânico nos supermercados. E a sede mundial da Coca-Coca, em Atlanta, vacila.
Essa tempestade não é a primeira: há alguns anos, as vacas inglesas ficaram loucas (alguns ingleses também), e rebanhos inteiros foram massacrados. Mais tarde, descobriu-se que um produto cancerígeno, a dioxina, transmitida pelos farelos de origem animal que os criadores dão às galinhas, aos carneiros e às vacas para engordá-los, contaminava iogurtes, ovos e carnes. Novo desastre econômico na Europa.
O caso da Coca-Coca inscreve-se nessa linha, mas assume uma sonoridade diferente porque desta vez é uma multinacional mundial que está envolvida e, ainda por cima, um símbolo do Império americano, da cupidez do capital americano. Por esse motivo, medidas drásticas foram tomadas para explicar duas coisas: de um lado, as multinacionais do setor alimentício, contrariamente à sua fama sombria, são extremamente preocupadas com a higiene, a qualidade dos produtos, etc.
Além desses três casos, a multiplicação de celeumas desse tipo provoca um ‘‘terrível medo planetário’’, medo esse que os espíritos apocalípticos relacionam com as pretensas catástrofes que se abatem sobre a humanidade toda vez que ela muda de milênio.
Deixemos o apocalipse de lado. Ele não tem nada a ver com isso. Em compensação, é fácil ver que o progresso técnico está eivado de perigos. A lista dos produtos nocivos atinge todas as áreas: os automóveis matam e envenenam. O fumo é uma porcaria. O sol dá câncer. O açúcar estraga as gengivas. As frutas e os cogumelos europeus, as trufas, contêm venenos, desde Chernobyl. Há esgotos em toda parte. As piscinas estão cheias de micróbios. Os eclipses do Sol causam cegueira. E se um homem se sente atraído por uma mulher e vice-versa, cuidado! Podem contrair Aids.
Um quadro sinistro. Só podemos elogiar a diligência dos poderes públicos, mesmo quando parecem exagerar: duzentas garrafas de Coca-Cola, era caso de assustar o planeta? Provavelmente não. Mas é um grande aviso para o futuro, endereçado a todos aqueles que deturpam, estragam, sujam o planeta.
Mas, nessa paisagem tenebrosa, alguns seres estão bem contentes: são as galinhas européias que levam uma vida de mártires desde que, para ganhar dinheiro, os produtores começaram a fazer criações monumentais, as ‘‘baterias’’ que agrupam de 20 mil a 40 mil aves.
Finalmente alarmados, os países da União Européia resolveram proibir essas criações gigantescas, com suas pobres aves encarceradas, alimentadas com farelos ignóbeis, empoleiradas nas grades, longe da terra, onde tanto gostam de ciscar, privadas do cheiro das plantas e do céu azul que, como todos sabem, são a verdadeira felicidade das galinhas.
A Europa vai pôr um fim a essa exploração degradante das galinhas. A criação nesse regime confinado, que constitui 92% das galinhas do Velho Continente, será proibida. As futuras gaiolas - a partir de 2012, pois a implantação do novo sistema levará tempo - deverão dispor de tudo aquilo de que as galinhas dos livros de história desfrutam: poleiros, forragens, ninhos. O tamanho das gaiolas, hoje limitado a 450 cm2, deverá passar para 720 cm2. É verdade que isso fará com que o preço dos ovos suba de cerca de 10%, o que é lamentável. Ao menos uma das vergonhas do século (a criação em ‘‘bateria’’) terá desaparecido.

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