G-7 tenta consertar relação com Moscou
Paulo Sotero Agência Estado
O acordo sobre a participação de soldados russos na força internacional de ocupação de Kosovo, anunciado na noite de sexta-feira em Helsinque, Finlândia, depois de três dias de difíceis negociações com os Estados Unidos, abriu o caminho para o conserto dos graves danos que a guerra da Aliança Atlântica contra a Iugoslávia causou nas relações entre Moscou e os governos ocidentais.
Restaurar o bom diálogo que o governo do presidente Bóris Yeltsín teve nos últimos anos com os EUA e com as principais potências européias é a principal preocupação política da reunião do Grupo dos Oito, que se instalou na manhã de ontem num museu de arte moderna ao lado da majestosa catedral gótica de Colônia, Alemanha.
Antes de sentarem à mesa de vidro octagonal especialmente fabricada para o encontro, os presidentes e primeiros-ministros foram cercados por dezenas de crianças ávidas por seus autógrafos, durante a cerimônia de abertura do evento. Enquanto os líderes dos países que concentram o poder econômico e militar discutiam o destino do mundo, perto de 70 mil pessoas mobilizadas pela movimento Jubileu 2000 deram-se as mãos sob o sol da primavera e formaram uma corrente humana no centro de Colônia, para pedir-lhes o cancelamento da dívida externa dos países mais pobres.
No final da manhã, o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, recebeu uma delegação dos manifestantes, liderada por Bono, do conjunto de rock U2, que lhe entregou um enorme saco contendo um abaixo assinado com milhões de assinaturas. Na véspera, os líderes haviam anunciado uma ampliação do programa de redução da dívida externa dos 36 países mais pobres, com a possibilidade de cancelamento de até metade de suas obrigações, numa atmosfera marcada pela sensação de alívio causada pela superação da crise financeira nos países em desenvolvimento e pelos primeiros sinais sólidos de recuperação da economia japonesa, a segunda maior do mundo, depois de uma década de estagnação.
Doente, mas interessado também em marcar o descontentamento da Rússia com os 78 dias de bombardeio aéreo da OTAN contra a Iugoslávia, um país de maioria eslava e tradicional aliado de Moscou, Yeltsin abreviou sua participação no encontro anual e comparecerá apenas na última sessão, na manhã de hoje, devendo permanecer não mais do que sete horas em Colônia. O novo primeiro- ministro da Rússia, Sergei Stepashin, ocupou a cadeira de seu país na reunião de ontem.
Nomeado no mês passado por Yeltsin, sua missão em Colônia é garantir o apoio dos líderes dos sete países mais ricos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália, Inglaterra e Canadá) ao desembolso de um crédito de US$ 4,5 bilhões do Fundo Monetário Internacional, do qual Moscou depende para pagar uma dívida ao próprio FMI, e à renegociação de débitos com bancos privados.
Embora o novo governo não tenha conseguido o apoio do parlamento russo para as reformas econômicas negociadas com o FMI como pré-condição para a liberação do dinheiro, a expectativa é que Moscou obterá o que quer dos líderes do Grupo dos Sete, que controlam a organização, como pagamento às concessões que fez nas negociações sobre a participação de seus soldados - 3,6 mil deles - na Kfor, a força de ocupação de Kosovo.
Apoio o acordo e estou muito satisfeito com ele, pois penso que é importante fazer todos os esforços para garantir a segurança tanto pessoal como de propriedades dos sérvios (que são minoria em Kosovo), bem como da maioria kosovar de origem albanesa, disse Clinton, indicando a crença da OTAN de que a presença das tropas russas será útil para evitar um êxodo total dos sérvios de Kosovo e dar proteção aos que deciderem ficar.
Yeltsin, que não se encontra com Clinton há dez meses, deverá ser acolhido hoje pelo presidente americano e pelos demais líderes com a notícia da reativação da ajuda econômica a seu país. Com a presença russa no pós-guerra assegurada, o Grupo dos Oito deverá anunciar também um plano de reconstrução de Kosovo e assistência aos países vizinhos da Iugoslávia. Eles tiveram suas economias e estabilidade interna comprometidas pela súbita chegada de mais de um milhão de refugiados kosovares em menos de dois meses e sofrerão durante anos o efeitos da destruição e empobrecimento que o bombardeio aliado causou ao país mais rico da região.
Empenhados em evitar os problemas que complicam até hoje a reconstrução da Bósnia, onde governos e organismos internacionais já investiram US$ 5 bilhões, os líderes deverão condicionar a ajuda aos países vizinhos da Iugoslávia à apresentração de um plano pelos governos interessado na ajuda. A idéia é evitar corrupção na utilização do dinheiro e a duplicação de esforços que ocorreu na Bósnia entre governos, instituições oficiais e organizações não governamentais.
Uma das razões pelas quais o Plano Marshall funcionou é que os países tinham um programa de reconstrução, disse Clinton, referindo-se à ajuda de US$ 13 bilhões que os EUA deram à Europa após a Segunda Guerra Mundial. A União Européia, que deverá arcar com a maior parte da conta, já programou uma conferência internacional com o Banco Mundial, no mês que vem, em Bruxelas, para discutir a reconstrução de Kosovo.
As estimativas sobre o custo da reconstrução de Kosovo variam entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões, dependendo de quem faz a conta e dos número de kosovares que retornar à província. O FMI e o Banco Mundial estimaram em US$ 2,2 bilhões os recursos necessários este ano para estabilizar as economias da Albânia, Macedônia, Montenegro, Bulgária e outros países dos Bálcãs. A reconstrução da Iugoslávia já foi orçada em algo entre US$ 50 e US$ 100 bilhões. Mas esse é um tópico que não está na mesa de negociações em Colônia, pois os líderes dos países da OTAN condicionaram qualquer assistência ao país, além da ajuda humanitária em remédios e alimentos, à saída do presidente Slobodan Milosevic e à substituição de seu regime por outro, mais democrático.
Além disso, a presença de Yeltsin na reunião, hoje, dificulta a discussão desse tópico. A participação da Rússia no encontro, os riscos que a complexa operação de estabilização dos Bálcãs apresenta e a baixa popularidade da Guerra do Kosovo na Europa e nos EUA desestimulam também a celebração de vitória pelos seis líderes de países membros da OTAN que estão na reunião do G-8 em Colônia. Tendo criado, com a guerra, um precedente para intervenções armadas em países soberanos por razões humanitárias, os líderes certamente discutirão as implicações do conflito para as relações internacionais.
Outros pontos quentes do planeta devem atrair a atenção dos líderes.
O governo da Índia, por exemplo, espera que o comunicado final do G-8 apóie sua posição no conflito com o Paquistão em torno da Caxemira. Na semana passada, o presidente Bill Clinton pediu ao governo do Paquistão que deixe de apoiar os guerrilheiros separatistas na província, que é administrada pela Índia.Cúpula na Alemanha é marcada pela sensação de alívio causada pela superação da crise financeira nos países em desenvolvimento
France PresseO grupo dos grandesA reunião do Grupo dos Oito se instalou ontem num museu de arte moderna ao lado da majestosa catedral gótica de ColôniaFrance PresseDa esq. p/ a dir.: o presidente norte-americano Bill Clinton, o presidente francês Jacques Chirac e o primeiro-ministro canadense Jean Chretien





