A divulgação de um vídeo mostrando Vladimiro Montesinos, chefe informal do Serviço de Inteligência Nacional do Peru (SIN), pagando suborno a um deputado da oposição para que ingressasse no partido do governo, jogou o Peru em uma enorme crise institucional. O resultado de dez anos sob a presidência de Alberto Fujimori, marcados por reformas constitucionais, eleições forjadas, medidas autoritárias e conchavos com facções militares, acabou promovendo a destruição institucional do Peru e a desorganização política generalizada.
Diante do escândalo provocado pelo vídeo, Fujimori teve que reagir e, como é sua característica, agiu de maneira demagógica e com intenções duvidosas. O presidente declarou que ‘‘por obrigação moral’’ iria convocar eleições gerais para que o próximo presidente tome posse em julho de 2001. Um projeto de reforma constitucional garantiria novas eleições.
É grande a possibilidade de Fujimori tentar eleger um herdeiro político com a máscara de um governo de transição para então voltar como candidato em 2006. Os peruanos já estão tão fartos do cinismo de Fujimori e da confusão política do país que a indignação vem se transformando em desesperança e apatia política. Mais da metade dos eleitores não confia em nenhum dos prováveis candidatos a uma eventual eleição, seja da situação ou da oposição.
O Peru tem uma das mais peculiares histórias políticas entre todos os países latino-americanos. Foi em seu território que surgiu e se centralizou a civilização dos incas, a mais poderosa e avançada civilização do continente sul-americano, por volta do ano 1200. A violência que caracterizou a ocupação espanhola do império incaico liderada por Francisco Pizarro em 1532 parece nunca ter sido apagada da história peruana. A derrota de Atahualpa não impediu que revoltas indígenas continuassem durante o século 14 e que voltassem com força total durante as insurreições de 1780, desta vez sob a liderança de José Condocanqui, o Tupac Amarú.
Embora o líder índio tenha sido executado em 1781, seu nome virou símbolo da resistência de índios e mestiços que lutaram e lutam para fazer parte da sociedade peruana em igualdade de condições. Após a Primeira Guerra Mundial a Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra), grupo nacionalista liderado por Haya de la Torre, buscou aumentar a participação dos índios e mestiços na política. O alinhamento do Peru com os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e os regimes militares que tomaram conta do país até os anos 50 colocaram a Apra na ilegalidade.
Marcada pela luta entre nacionalistas identificados com as massas indígenas e elites a favor dos norte-americanos, a história política do Peru será a de um país dividido onde guerrilhas radicais de esquerda realizarão violentos ataques durante todo o período da Guerra Fria e onde as Forças Armadas nunca saíram do jogo de poder. Após o governo catastrófico de Alan Garcia, eleito em 1985 pela Apra, a economia peruana entra em colapso e o poder da guerrilha maoísta Sendero Luminoso ganha enorme projeção. Em 1990, o descendente de japoneses Alberto Fujimori, até então um desconhecido candidato de um partido também desconhecido, apresenta-se como salvador da pátria e monopoliza os votos de descontentes, elites empresariais e financeiras e torna-se presidente. Garantindo o apoio das Forças Armadas, logra aniquilar as guerrilhas e boa parte do tráfico de drogas que ocupava regiões do país, e adquire relativa popularidade.
Mas o problema peruano continua sendo o mesmo combatido por Tupac Amarú: a ausência da população indígena e mestiça no campo político em uma realidade de extrema pobreza tratada com indiferença por uma elite pouco identificada com o passado glorioso e com a cultura do Peru.
O modelo fujimorista parece ter chegado ao fim mas o país ainda sofre para solucionar mais uma crise política de grandes proporções. As causas de mais um triste episódio na história política peruana merecem análise. Não há dúvida que algum tipo de rompimento dentro das Forças Armadas desencadeou a crise atual, provocando a gravação e divulgação do vídeo que incrimina o chefe do serviço de inteligência e ex-assessor de Fujimori.
Provavelmente a insatisfação vem da Marinha, que sentia-se desprestigiada em relação ao Exército, que sofre forte influência de Montesinos. A participação da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) na trama do vídeo não está descartada. Embora Montesinos tenha espionado para a CIA em outras ocasiões, a insatisfação dos Estados Unidos com Fujimori e seus aliados ficou evidente desde abril, quando uma missão da OEA pediu o adiamento do segundo turno das eleições que o reelegeram por identificar fraudes.
O envolvimento de Montesinos em uma rede de contrabando de armas oriundas da Jordânia que eram vendidas aos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), engordando as receitas de oficiais do Exército, pode ter sido a gota d’agua para desencadear o escândalo.
Ainda há dúvidas sobre o que acontecerá depois da desmoralização que o governo Fujimori vem sofrendo com mais este mar de lama. O impacto da convocação de novas eleições ainda não descarta alguma manobra de Fujimori, que se perpetuou no poder desde 1990. O mais preocupante, no entanto, é a enorme dificuldade da oposição em formar uma frente unida e apresentar uma candidatura única contra o governo.
O ex-candidato de oposição Alejandro Toledo é o mais popular dos oposicionistas. Usa sua origem indígena para identificar o contido grito de liberdade indígena e mestiça. Apesar disso, importantes facções da oposição, como Fernando Oliveira, congressista que divulgou a fita de Montesinos e líder da frente independente Moralizadora, não acreditam em sua mensagem, considerada populista. Mais uma vez o país se encontra em uma encruzilhada. Após dez anos de estagnação e liberdade restrita, o Peru ainda deverá enfrentar grande instabilidade política.
Christian Lohbauer, doutor em Ciência Política pela USP, é membro da área internacional do Instituto de Estudos Avançados da USP.
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