Funcionários dos EUA deixam de receber salários por 'shutdown' do governo
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sábado, 12 de janeiro de 2019
France Presse 
Washington - Os cerca de 800 mil funcionários federais americanos afetados pelo fechamento do governo não receberam salários pela primeira vez nesta sexta-feira (11). O presidente Donald Trump ameaça recorrer a um procedimento excepcional para financiar o projeto de erguer um muro na fronteira com o México.
Neste sábado, 22º dia de "shutdown" que afeta parte das administrações, não parece haver avanços nas negociações entre Trump - que quer destinar 5,7 bilhões de dólares para cumprir a promessa de campanha - e a oposição democrata no Congresso - que se nega a liberar esses fundos para financiar uma obra que considera "imoral", cara e ineficaz para combater a imigração ilegal.
Nesta sexta, o presidente voltou a criticar com uma mensagem no Twitter chamando de "invasão" a situação vivida na fronteira com o México, insistindo que sem o muro os Estados Unidos não podem ser "um país seguro. Criminosos, gangues, traficantes de pessoas, drogas e muitos outros problemas". A paralisia parcial do governo dos EUA passou a ser a mais longa da história do país. Iniciado em 22 de dezembro, o "shutdown" superou o recorde anterior de 21 dias registrado em 1996 durante o mandato do democrata Bill Clinton.
Enquanto isso, cerca de 800 mil funcionários públicos de vários departamentos e agências federais não receberam os salários. A maioria deles recebe a cada quinzena e, por isso, o pagamento foi feito no final de dezembro. A Câmara de Representantes aprovou nesta sexta-feira uma lei, já aprovada pelo Senado, para garantir que os funcionários recebam retroativamente assim que terminar a paralisação. Agora, cabe ao presidente promulgar o texto.
O "shutdown" atinge vários departamentos fundamentais como o DHS (de Segurança Nacional), o de Justiça e o de Transporte. "Mais de 200 mil funcionários do DHS - encarregados de proteger o nosso espaço aéreo, nossas vias fluviais e nossas fronteiras - não receberão salário enquanto trabalham", denunciou Bennie Thompson, presidente democrata da Comissão para a Segurança Nacional da Câmara de Representantes.
Os principais sindicatos do transporte aéreo, entre eles os de pilotos, tripulação e controladores aéreos, denunciaram na quinta-feira que a situação está piorando e advertiram sobre o risco para a segurança do país.
De fato, um terminal do aeroporto de Miami vai fechar de forma intermitente de sábado a segunda-feira por falta de pessoal. Cerca de 2 mil funcionários se manifestaram na quinta-feira em Washington. - 'Feitos reféns' -"Temos contas a pagar. Temos que pagar nossas hipotecas", se queixou Anthony, um funcionário público da Guarda Costeira.
"Sempre tive o salário mais alto em casa e os tempos são difíceis agora que o dinheiro não chega. Felizmente temos algumas economias para sobreviver, mas não durarão muito", explicou. Nós, funcionários, fomos "feitos reféns" pelo presidente, acrescentou.
Ao longo do país são organizadas iniciativas privadas e públicas, como distribuição gratuita de comida e feiras de emprego para funcionários tecnicamente desempregados. O "shutdown" afeta também os recém-casados, que não podem legalizar a sua união pela falta de funcionários federais.
Paradoxalmente, o conflito, que no fundo se deve à forma de responder à chegada de imigrantes ao país, fragiliza um pilar central da política migratória: os 62 tribunais especializados em casos de estrangeiros em situação irregular. Desde que a paralisação orçamentária começou, os juízes só examinam casos "urgentes", aqueles de migrantes detidos. Todas as outras audiências foram suspensas e os oficiais de Justiça não entregam notificações.
Diante de um panorama nada encantador no Congresso, Trump ameaçou recorrer a um procedimento de "emergência nacional". "Se não chegarmos a um acordo, o mais provável é que eu faça o que disse que faria", afirmou na quinta-feira ao canal Fox News, à margem de uma visita à colônia McAllen, na fronteira com o México. "Temos o direito absoluto de declarar uma emergência nacional, é um problema de segurança", argumentou o bilionário republicano. Porém, este mecanismo que concede ao presidente poderes extraordinários acabaria, previsivelmente, nos tribunais, uma situação que agravaria ainda mais a crise política.
A Casa Branca planeja desviar os fundos de ajuda de emergência para áreas devastadas por desastres naturais, como Porto Rico, para financiar a construção do muro fronteiriço, segundo publicações da mídia americana. Uma paralisação prolongada do governo federal "teria um efeito considerável" na maior economia do mundo, advertiu o chefe do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell.


