‘‘Como pode o cavalo correr sozinho em seu páreo?’’, perguntava ontem, indignado, na fila de votação do Estádio Nacional, o operário aposentado Raúl Muñoz. ‘‘Temos de ser realistas. Nosso povo é muito pobre e não pode pagar a multa por não votar (116 novos sóis, cerca de R$ 60), mas vou anular meu voto.’’
O cavalo, no caso, é o candidato-presidente Alberto Fujimori, que teve pavimentado seu caminho rumo ao terceiro mandato consecutivo pela recusa de seu adversário, Alejandro Toledo, em participar do segundo turno da eleição presidencial por considerá-la viciada. Fujimori está só no páreo e correndo às costas dos árbitros: quase todas as entidades de observação eleitoral, estrangeiras e peruanas, desmontaram seus esquemas de fiscalização.
Como era esperado, manifestantes anti-Fujimori começaram a reunir-se na Praça San Martín, no centro de Lima, no começo da tarde. A polícia dispersou-os com bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água para evitar manifestações até o fim da votação, às 16 horas locais (18 horas de Brasília). A praça foi cercada pelos policiais, que fecharam todo o acesso a ela.
Aparentemente, não houve feridos ou detidos. Em Jaen, no norte do país, as autoridades eleitorais receberam a denúncia de que foram encontradas 12 cédulas eleitorais previamente marcadas com o voto a Fujimori.
Com a vitória garantida, o presidente votou discretamente na Escola de Belas Artes, em Lima. Não fez declarações. Sua filha mais velha, Keiko Sofía, elevada ao posto de primeira-dama desde que Fujimori divorciou-se da mãe dela, Susana Higuchi, votou numa escola em San Borja, distrito de Lima. Uma claque que chegou em dois ônibus postou-se na frente da escola para esperar Keiko aos gritos de ‘‘Fujimori, Fujimori’’ e ‘‘Chino, Chino’’. Ao contrário do que ocorrera no centro de Lima com os anti-fujimoristas, a polícia fez vista grossa à manifestação eleitoral ilegal.
Toledo não saiu de sua casa, localizada num elegante condomínio no bairro de Camacho, pela manhã. Recebeu jornalistas para reiterar sua intenção de liderar a ‘‘resistência pacífica’’ à ‘‘ditadura de Fujimori’’.
‘‘Não quero fazer comparações para não parecer pretensioso, mas há precedentes históricos de lutas democráticas não violentas como as de Ghandi, de Martin Luther King e de Corazón Aquino’’, disse. ‘‘Vamos reconstruir, pacificante, a democracia peruana.’’ Depois, Toledo foi almoçar num comedor popular no distrito paupérrimo de El Agustino. Ali, dirigiu-se às centenas de seguidores que o esperavam. Num breve discurso, esclareceu que não estava fazendo campanha de caráter eleitoral, mas voltou a exortar a população a anular o voto.
Apesar da certeza da vitória de Fujimori, o futuro do país passa a ser jogado agora no exterior. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o ex-presidente colombiano César Gaviria, convocou o chefe da Missão dos Observadores da OEA, Eduardo Stein, para uma reunião de emergência na quarta-feira para informar-se sobre o processo eleitoral. Stein retirou-se do Peru na sexta-feira, depois do fracasso das negociações para obter o adiamento da votação.
A reunião da OEA no fim de semana, no Canadá, pode ter consequências dramáticas para o país. Também na sexta-feira, o presidente americano, Bill Clinton, declarou que o Peru ficaria sujeito a sanções políticas e econômicas, caso as eleições não se realizassem de modo inquestionável. No sábado, Toledo disse que considerava a possibilidade de viajar ao Canadá para realizar contatos com representantes da OEA.

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