A chance de se estabelecer e passar a trabalhar legalmente nos Estados Unidos não está seduzindo os integrantes da primeira leva de refugiados de Kosovo que desembarcou nos EUA nesta semana. Ontem, a Agência Folha visitou a base militar onde os refugiados estão provisoriamente em Fort Dix, Nova Jérsei (Costa Leste dos EUA), e vários pais de família disseram que voltariam a Kosovo se a Província ganhasse autonomia. Expulsos pelos sérvios depois que o conflito na Iugoslávia começou em 24 de março, eles estavam morando em acampamentos em países próximos a Kosovo. Para aliviar a situação desses países, já que o número de refugiados superou em muito os 100 mil esperados (chegando a mais de 800 mil), os EUA decidiram receber 20 mil kosovares, dando-lhes a chance de trabalhar no país.
Os relatos feitos pelos refugiados de Kosovo em Fort Dix mostram uma série de atrocidades que teriam sido cometidas contra eles pelas tropas sérvias. Segundo os refugiados, a mais comum era a ameaça de morte que os soldados faziam quando expulsavam alguém de casa.
‘‘O Exército sérvio deu 30 segundos para pegarmos nossas coisas e irmos
embora. Colocaram uma arma na minha garganta e pegaram todo o meu dinheiro, disse Ilir Hoxhe, produtor musical de uma rádio de Pristina (capital da Província de Kosovo).
Hoxhe foi expulso em 1º de abril com a mulher, suas duas filhas (15 e 17 anos) e seu filho (19 anos). A família vivia numa casa de quatro quartos. Na fila para pegar o trem para a Macedônia, disse que passou outro momento de tensão. Segundo ele, todos olham para a frente. Quem vira para o lado corre o risco de morrer.
O trem também foi o sofrimento para a família do motorista de táxi Fadil Krasniqi, 46 anos, expulso também em 1º de abril. Ele disse que não havia mais vagas quando chegou à estação e eles tiveram de esperar, sem abrigo, o próximo trem na manhã seguinte.
Krasniqi contou ainda que nos primeiros dias do conflito os sérvios tentaram simular um ataque da Otan a casas de albaneses. Segundo ele, num dia em que a Otan atacava áreas próximas a Pristina (capital de Kosovo), viu soldados sérvios causarem a explosão de seis casas onde moravam pessoas de origem albanesa. O taxista disse que os soldados encheram um carro com dinamite para culpar a Otan.

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