Frustrado golpe militar no Paraguai
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sexta-feira, 19 de maio de 2000
Agência Folha De Assunção 
O governo paraguaio decretou estado de exceção no início da madrugada de ontem, depois da tentativa de golpe anteontem promovida contra o presidente Luis González Macchi.
O enfrentamento entre setores do Exército supostamente ligados ao general golpista Lino Oviedo e o governo deixou como saldo dois homens e uma mulher levemente feridos.
A medida do Executivo prevê a perda de garantias democráticas individuais durante 30 dias. Entretanto, a determinação só será efetivada depois da aprovação dos parlamentares no Congresso paraguaio, que, de acordo com as leis do país, terá de se reunir em 48 horas.
Além do estado de exceção, o presidente Macchi trocou o comando do policiamento do Paraguai. Casto Guillen será substituído pelo novo chefe da polícia, Angel Rojas.
Macchi anunciou à 0h05 (1h05 no horário de Brasília) que a situação já estava sob controle, mas por volta da 0h20 (1h20 no Brasil), os militares teriam utilizado tanques e metralhadoras para atacar o prédio do Congresso, em Assunção.
De acordo com as versões oficiais, a tentativa de golpe militar teria sido organizada pelo ex-general Lino Oviedo, foragido desde dezembro. Segundo Macchi, a sublevação foi sem dúvida obra promovida por Oviedo.
O Conselho da Organização dos Estados Americanos (OEA) deveria reunir-se ainda ontem para discutir a tentativa de golpe militar. A embaixada dos Estados Unidos em Assunção divulgou nota onde afirma que o governo norte-americano não aceita qualquer tentativa de ruptura constitucional no país.
Já a nota dos países do Mercosul, também condenando a medida de força, foi assinada pelos seguintes embaixadores acreditados em Assunção: Bernardo Pericás Neto (Brasil), José Berro Madero (Argentina), Rodolfo Olavarría (Uruguai), Emilio Ruiz Tagle (Chile) e Luis González Quintanilla (Bolívia).
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ao presidente Macchi, que considera totalmente inaceitável qualquer tentativa de golpe. Segundo nota divulgada oficial, FHC telefonou às 10h45 para Macchi, para informar-se sobre a situação.
Os embaixadores da União Européia também condenaram a tentativa de golpe.
Às 3 horas da manhã o general da reserva Lino Oviedo ligou para a Rádio Paraná de Itapúa dizendo que soube da tentativa de golpe por terceiros. Garanto que a Unace não está envolvida no episódio. A Unace é a União Nacional dos Colorados Éticos, grupo que representa o general dentro do Partido Colorado. Esse governo é usurpador e ilegítimo e acredito na soberania do povo, da nossa força cívica e no veredito. Quem fala é o presidente da Unace na clandestinidade e na resistência pacífica. Viva a democracia e viva a pátria, acrescentou o general da reserva.
Em uma gravação de péssima qualidade, divulgada pela rádio Uno, escuta-se uma voz, supostamente de Oviedo, dando ordens para fecharem as estradas do país. Na gravação também ouve-se que o objetivo do golpe seria exigir eleições presidenciais e fim do processo de privatização.
O jornal La Nacion, da Argentina, publicou ontem artigo do jornalista Mariano Grondona questionando a democracia paraguaia e chamando de ilegítimo o governo de González Macchi. Em um trecho, o artigo diz: Como a UE, o Mercosul é um acordo de convergência econômica acompanhada por uma restrição: só podem ingressar ou permanecer nele as nações democráticas. O Paraguai seria uma democracia?
Num editorial duro, em seu site na Internet, o ABC Color, do Paraguai, disse ontem que os acontecimentos da madrugada no país são consequências de coisas mal-feitas, resultado de vários meses de esforços falidos por consolidar um regime governamental cheio de ilegitimidade e cuja saída seria o retorno à institucionalidade por meio de eleições gerais. O jornal condena a tentativa de golpe e diz que ele só aumentaria a violência no país se fosse vitorioso.
ABC diz que o responsável por tudo é o presidente Macchi, que tem alimentado o caldeirão que agora ferveu de vez. Ele poderia legitimar-se pelo voto mas preferiu recorrer a interpretações jurídicas para sustentar-se no poder. Para o jornal, embora o golpe tenha fracassado, o país deve esperar por outros pois as condições sociais atuais são propícias para isso.


